
Simpatia, bom humor, cordialidade e compromisso são algumas das qualidades percebidas no primeiro minuto de conversa com o Dr. Jorge da Rocha Gomes, 90 anos, recém-completados, em 9 de abril. Para homenageá-lo, a ANAMT organizou um almoço para comemorar o aniversário do veterano da medicina do trabalho, e entregou uma placa comemorativa na ocasião. E não faltou emoção.
“O pessoal que compareceu ao almoço me fez um grande bem. Com que emoção ouvir os colegas rememorando fatos de nossa vida, alguns bem antigos. Fiquei pensando que passamos pela vida muito rapidamente e são episódios como este que nos fazem lembrar parodiando o poeta Francisco Otaviano: ‘passamos pela vida e … vivemos!’
Trajetória
Nascido em 1935, no Rio Grande do Sul, Dr. Jorge abraçou a medicina do trabalho quando a especialidade começava a dar seus primeiros passos. Foi presidente da ANAMT entre 1981 e 1983 e, ao lembrar o período, destaca que seu maior desafio na ocasião foi suceder o professor Paulino no cargo: “Manter a sua obra não foi nada fácil.” O Dr. Oswaldo Paulino foi um dos fundadores da associação, que presidiu de 1970 a 1981.
O Dr. Jorge, que mora em Tatuí (SP), desde de 1997, casado com Romarina Gomes, com 4 filhos e 7 netos, conta que se formou em medicina em 1960, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A especialidade em medicina do trabalho cursou na Faculdade de Saúde Pública da USP. “Durante minha formação em medicina, não se abordava quase nada da medicina do trabalho”, pontuou.
Ele relata detalhes da época de formação. “Quando estava fazendo o curso de saúde pública, o meu colega Dr. Edgar Raoul Gomes, que era também funcionário da Secretaria do Trabalho de São Paulo, que me incentivou a fazer todas as disciplinas da área. Isto foi em 1969 e, ao final deste ano, já estava fazendo estágio no SESI, com o Dr. Bernardo Bedrikow, quando defendi a dissertação de mestrado sobre efeitos da exposição ao chumbo. No SESI, tive a oportunidade de atender muitos pacientes portadores de doenças profissionais, assim como visitar os ambientes de trabalho que as causaram. Foi assim que nasceu meu interesse pela nossa especialidade”.
Ao iniciar a carreira na área, a medicina do trabalho ainda era muito incipiente, como reconhece o Dr. Jorge. “Lembro uma reportagem de ‘O médico moderno’ onde o Prof. René Mendes referia que podia contar o número de médicos do trabalho nos dedos da mão. Refiro-me à década de 1970. Somente algumas poucas empresas grandes e, em geral, multinacionais, é que mantinham serviços especializados. A Faculdade de Saúde Pública da USP oferecia algumas disciplinas de Saúde do Trabalhador no currículo do curso de especialização em Saúde Pública. Estas disciplinas foram implantadas pelos professores da Faculdade Benjamim Alves Ribeiro, Diogo Pupo Nogueira e Herbert Stettiner. Contaram, também, com a colaboração do engenheiro Silas Fonseca Redondo e Bernardo Bedrikow,” detalhou.
Vale lembrar que naquela época não existiam Normas Regulamentadoras (NRs) para balizar a atividade dos médicos especialistas. “Elas vieram depois. Tanto a Faculdade como a ANAMT colaboraram com o Ministério do Trabalho na sua elaboração. Antes das NRs os médicos se baseavam na CLT para se nortearem em sua atividade”, acentuou.
Para o Dr. Jorge, as NRs auxiliam a atuação dos médicos do trabalho. “Foram de grande importância. Apenas para dar um exemplo: foi a partir delas que foram implantados os cursos de medicina e enfermagem do trabalho e engenharia de segurança no trabalho que formaram uma quantidade enorme desses profissionais. Este é apenas um exemplo, mas as NRs foram de grande utilidade porque davam um respaldo legal para os profissionais junto aos diretores das empresas e obrigavam as empresas a manterem Serviços Especializados.”
Da época que presidiu a ANAMT, Dr. Jorge lembra ainda que foi neste período que os cursos relacionados com a especialidade requeriam dedicação dos médicos já tarimbados na especialidade e membros da Associação. “Éramos acionados para ministrar aulas em vários estados além dos cursos da Faculdade de Saúde Pública”, ressaltou.
Recordações da carreira não faltam a este médico dedicado. “Com apenas dois anos em São Paulo, já fui eleito para ser o presidente do então Departamento de Medicina do Trabalho da APM. Uma colega ficou admirada como em tão pouco tempo já era presidente da Associação. Não foi nenhum mérito especial: é que simplesmente não havia outros profissionais dispostos a se candidatar. Na sessão em que fui empossado, havia apenas os que estavam saindo e os que estavam assumindo. Éramos muito poucos,” enfatizou.
Com uma rica experiência profissional, o Dr. Jorge conta episódios interessantes que vivenciou. Alguns deles, na Volkswagen. Lá, o especialista relacionou-se com o sindicato dos metalúrgicos, cujo presidente na ocasião era o presidente Lula. Outro contato também histórico foi com o atual ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que trabalhava na área de pintura e era membro da CIPA da empresa, representante dos trabalhadores.
Experiência internacional também faz parte do vasto currículo. “Como consultor da OIT visitei, por várias vezes, os cinco países que têm o português como língua oficial, podendo observar aspectos tão distintos de nosso dia-a-dia brasileiro”, observou.
Dr. Jorge trabalhou na Faculdade de 1972 a 1997, ministrando aulas, prestando serviços à comunidade e fazendo pesquisa. “Integrei a Comissão que elaborou o regimento e o currículo dos cursos de especialização (médicos e engenheiros) tendo coordenado o curso para médico por vários anos. Percorri todos os estágios de um professor, de mestre a titular,” orgulha-se. “Como superintendente da Fundacentro, tive uma experiência inédita para mim pois ela é uma Fundação Federal do Ministério do Trabalho e administrar seus funcionários não foi tarefa fácil”, comentou o veterano.
Ao ser indagado sobre qual conselho daria hoje a um jovem médico do trabalho, o Dr. Jorge disse: “Meu caro jovem, você escolheu uma especialidade que vai te dar muito trabalho e, muitas vezes, decepções e desânimo, mas também é altamente recompensadora em termos da satisfação de ter contribuído para o bem-estar de trabalhadores”, concluiu o especialista.