Fora das empresas e dos consultórios, a Medicina do Trabalho também encontra espaço para fazer a diferença na vida dos brasileiros. É o que mostram inúmeros especialistas da área que têm ação ativa em projetos e iniciativas de caráter social, com impacto em suas comunidades e regiões.
Desta forma, com base no voluntariado e no compromisso cidadão e social, em diferentes localidades, médicos do trabalho transformam seu conhecimento e experiência numa atuação focada na transformação de comunidades em situação de vulnerabilidade, ampliando o acesso à saúde e contribuindo para a prevenção, a orientação e o cuidado integral.
Os relatos atravessaram fronteiras, trazidos por colegas que testemunharam esse engajamento, e chegaram até a sede da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) que resolveu conhecer um pouco sobre essas ações que, se não mudam o mundo como um todo, são capazes de dar um novo sentido e esperança ao mundo de alguns que vivem em situação de vulnerabilidade.
Serviços gratuitos – As formas de segurar a mão do próximo diferem de lugar para lugar. No Pará, o médico do trabalho Benones Santos de Carvalho, presidente da Sociedade Paraense de Medicina do Trabalho (SPMT), dedica há cerca de quatro anos todas as tardes de quarta-feira ao trabalho voluntário na Missão de Saúde da Assembleia de Deus, em Belém. A iniciativa reúne profissionais de diferentes áreas e já soma mais de 25 mil serviços gratuitos, atendendo moradores da capital, do interior do estado e da Ilha do Marajó.
O projeto oferece consultas médicas, suporte de enfermagem, atendimentos odontológicos e psicológicos, orientação farmacêutica e acesso a medicamentos em uma farmácia social. Benones também participa do Impacto Humanitário, realizado anualmente em Melgaço, no Arquipélago do Marajó, também no Pará.
Nesta localidade, em 2026, cerca de 600 voluntários de oito estados participaram de uma mobilização que alcançou mais de 5 mil pessoas de comunidades ribeirinhas em quatro dias. “Muitas das pessoas atendidas vivem em condições que são, em si, fatores de risco à saúde. Levar esse conhecimento para a comunidade é ampliar o alcance da nossa especialidade e cumprir, na prática, o compromisso com a prevenção e com a saúde pública”, destaca Benones.
Malawi, Bahia e Minas – O sentimento positivo de fazer a coisa certa a quem não se conhece também impactou a médica do trabalho Walneia Moreira. Ela também encontrou no voluntariado uma forma de ampliar o alcance da Medicina e nesta trajetória já esteve até no Malawi, na África, em uma missão que atendeu centenas de moradores. Grata pela chance de contribuir para a construção de um país melhor, Walneia ainda participou de atividades no Brasil.
Foi com essa motivação que ela integrou o grupo de voluntários de caravanas de saúde que cruzaram o sertão baiano. Mais recentemente fez o mesmo nos municípios do Norte de Minas. As ações envolviam atendimento médico e iniciativas de prevenção e educação em saúde. Com a evolução dos projetos, conta ela, outras frentes foram desenvolvidas e incorporadas para atender carências locais.
Em comunidades mineiras, por exemplo, os voluntários desenvolveram estratégias para ajudar famílias a enfrentarem os problemas relacionados ao alcoolismo e à prevenção ao suicídio. Além do contato com os moradores, os participantes ainda desenvolveram ações de treinamento de capacitação de professores e agentes de saúde para darem continuidade às abordagens feitas.
Caravanas – Na conta, Walneia ainda tem o envolvimento em projetos de incentivo ao empreendedorismo feminino, na expectativa de fazer com que as mulheres se qualifiquem para o trabalho e sejam geradoras de renda para as suas famílias. “As caravanas de saúde vão entendendo a necessidade da comunidade. Procuramos agir dentro do conceito de saúde como bem-estar físico, social e mental”, explica a médica do trabalho.
Neste processo, ela compartilha um aprendizado que tirou das missões e projetos: a escuta também tem papel fundamental: “Muitas vezes, o simples fato de alguém se sentir visto, ouvido e tratado com dignidade já produz uma transformação”, disse, ao lembrar que as experiências vivenciadas reforçam as próprias competências da Medicina do Trabalho, como a identificação de fatores de risco, a prevenção e o olhar integral sobre o indivíduo.
Gratidão – Walneia e Benones integram o grupo pouco visível de pessoas que têm no DNA a vocação para a solidariedade e a filantropia. Ao colocarem em práticas esses atributos, relatam ganhos que vão além de remuneração ou honorários. Afinal, recebem como retorno gratidão e uma visão clara sobre o real papel do homem.
“Cada missão nos lembra que a Medicina é, antes de tudo, uma profissão de serviço. Saímos dessas experiências diferentes de como chegamos”, resume Walneia. Já, para Benones, levar conhecimento às comunidades representa uma forma de retribuição. “É uma maneira de devolvermos à sociedade aquilo que aprendemos e construímos ao longo da carreira”, disse.
Entusiasta desse desprendimento, o presidente da ANAMT, Francisco Cortes Fernandes, parabeniza os médicos do trabalho que fazem trabalho voluntário e estimula todos a buscarem um caminho para contribuir com a transformação da sociedade. “Ao ultrapassar os limites das empresas e consultórios, essas iniciativas reforçam a dimensão social da nossa especialidade, aproximando os médicos das comunidades que precisam não apenas de assistência, mas também de prevenção, informação, escuta e acolhimento”, concluiu.