Diretrizes da OMS acendem alerta para prevenção, segurança e cuidado no ambiente laboral relacionados ao uso de opioides

O debate sobre o uso de opioides e seus impactos na saúde pública ganhou novo capítulo após a Organização Mundial da Saúde (OMS) comunicar, em abril, a necessidade de ampliar estratégias de prevenção a overdoses e orientações para o tratamento da dependência. O tema, que já mobiliza sistemas de saúde em diferentes países, também passou a integrar a agenda da medicina ocupacional, diante da sua repercussão na segurança, produtividade e continuidade operacional nas empresas.

Para a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), esse assunto também merece atenção. Na entrevista a seguir, o diretor científico da entidade, Ricardo Turenko, analisa os reflexos das diretrizes da OMS para a Medicina do Trabalho, comenta os riscos associados ao uso de opioides no ambiente laboral e explica como profissionais da área podem atuar diante de casos de uso problemático ou dependência.

Ricardo Turenko é médico do trabalho e ergonomista, especialista pela ANAMT, com pós-graduação em Perícia Médica. Ele também integra a Câmara Técnica de Medicina do Trabalho do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) e coordena a Comissão de Estudo Especial de Ergonomia – Antropometria e Biomecânica (ABNT/CEE-136) da ABNT. Além disso, é membro da Ergonomics International School (EPMIES), em Milão, e foi secretário nacional do Brasil na International Commission on Occupational Health (ICOH) entre 2022 e 2024. Confira! 

ANAMT – Sob o ponto de vista da Medicina do Trabalho, qual a avaliação sobre as diretrizes da OMS que estão em curso?

Ricardo Turenko – Para a Medicina do Trabalho, as diretrizes da OMS consolidam três mensagens práticas: (1) prevenir a transição do uso terapêutico para uso problemático, por meio de vigilância clínica e racionalidade terapêutica; (2) tratar dependência como condição de saúde, com terapias efetivas, como tratamento com agonistas opioides (metadona e buprenorfina), quando indicado; e (3) reduzir mortes por overdose com medidas de prontidão, como disponibilidade de naloxona e treinamento em resposta a emergências. A OMS já havia publicado diretriz específica para manejo comunitário de overdose por opioides, em 2014, com foco em ampliar acesso à naloxona e primeiros socorros.

 

ANAMT – O uso de opioides deve ser uma preocupação para o Brasil? 


RT – Sim, como preocupação preventiva e de vigilância, ainda que o Brasil não tenha o mesmo padrão epidêmico observado em alguns países. Há evidências de crescimento nas vendas e prescrições de opioides no país em períodos analisados por instituições nacionais, sugerindo maior exposição populacional. Além disso, a ausência de sistemas de vigilância consolidados e dados padronizados reforça a necessidade de monitoramento contínuo. O controle sanitário de substâncias no Brasil é um fator de proteção, mas não elimina o risco de uso inadequado, dependência e eventos adversos.


ANAMT – Essa preocupação já chegou ao setor produtivo, em especial aos trabalhadores?
RT – Ela chega ao setor produtivo de forma heterogênea. É mais visível em segmentos com maior prevalência de dor crônica e agravos osteomusculares, como LER/DORT, em pós-operatórios e em contextos com maior risco psicossocial. A tendência global de expansão de mercados e uso de drogas reforça que o tema deve entrar na pauta de prevenção e saúde ocupacional, mesmo sem uma “crise declarada” no Brasil.

 

ANAMT – De que forma o uso de opioides impacta a saúde do trabalhador e a produtividade?

RT – Mesmo quando prescritos, opioides podem provocar efeitos com impacto direto na segurança e desempenho, como sedação, lentificação psicomotora, prejuízo cognitivo e risco de acidentes, além do risco de dependência e overdose em situações específicas, como combinações com álcool e benzodiazepínicos, altas doses ou redução de tolerância após períodos sem uso. Em atividades críticas, que incluem contato com máquinas, altura, direção e eletricidade, isso pode se traduzir em maior risco ocupacional e aumento de absenteísmo, presenteísmo e falhas operacionais.

 

ANAMT – De que forma a Medicina do Trabalho atua diante do uso de opioides no ambiente laboral?
RT – A atuação costuma se organizar em três frentes. Primeiro, na prevenção e educação, com orientação sobre riscos, interações e cuidados em atividades críticas. Segundo, na gestão de aptidão e segurança, com avaliação de função e atividade e, quando necessário, restrições funcionais temporárias, sem exposição de diagnóstico ao empregador. Terceiro, no envolvimento com o cuidado e encaminhamento, com identificação de uso problemático e acionamento da rede assistencial, além de plano de retorno ao trabalho e acompanhamento.

 

ANAMT – Se o médico do trabalho se deparar com um colaborador com problemas com opioides, qual orientação ele deve seguir? 

RT – Uma orientação prática e ética é acolher e preservar o sigilo, comunicando ao Departamento de Recursos Humanos apenas informações funcionais, como aptidão, restrições e prazos. Além disso, deve estratificar o risco ocupacional, avaliar sinais de uso problemático, como sonolência excessiva, acidentes, faltas e queda de desempenho e encaminhar para avaliação e tratamento quando houver suspeita de dependência. Outro ponto é preparar o ambiente para emergências, especialmente onde houver risco plausível de overdose. Também deve organizar plano de retorno ao trabalho com metas clínicas e funcionais e reavaliação periódica. Em resumo, o tema deve ser tratado como risco à saúde e à segurança, com abordagem não punitiva, centrada em cuidado, prevenção e proteção do ambiente laboral.

Por |2026-05-18T16:55:20-03:0018 de maio de 2026|Institucional, Notícias|Comentários desativados em Diretrizes da OMS acendem alerta para prevenção, segurança e cuidado no ambiente laboral relacionados ao uso de opioides