{"id":53538,"date":"2026-01-27T11:13:14","date_gmt":"2026-01-27T14:13:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=53538"},"modified":"2026-01-27T11:19:19","modified_gmt":"2026-01-27T14:19:19","slug":"levantamento-anamt-com-dados-oficiais-do-inss-revela-crescimento-dos-afastamentos-decorrentes-de-problemas-de-saude-mental-entre-2023-e-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2026\/01\/27\/levantamento-anamt-com-dados-oficiais-do-inss-revela-crescimento-dos-afastamentos-decorrentes-de-problemas-de-saude-mental-entre-2023-e-2025\/","title":{"rendered":"Levantamento da ANAMT revela crescimento de afastamentos por problemas de sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"<p>Problemas de ansiedade, depress\u00e3o, estresse grave, uso de \u00e1lcool e s\u00edndrome de Burnout: essas s\u00e3o as principais causas, no Brasil, de afastamento do trabalho decorrente de quadros mentais diagnosticados. Al\u00e9m delas, h\u00e1 outros motivos que tamb\u00e9m aparecem de forma recorrente no atendimento ao trabalhador e que s\u00e3o influenciados pela rotina laboral, como psicoses e transtornos delirantes e do humor.<\/p>\n<p>Esse retrato foi detalhado a partir de uma an\u00e1lise que a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) fez de dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Os n\u00fameros revelam uma situa\u00e7\u00e3o preocupante: os afastamentos decorrentes de transtornos mentais entraram em uma trajet\u00f3ria de crescimento acelerado no pa\u00eds, praticamente dobrando de volume dentro do per\u00edodo avaliado.<\/p>\n<p>No m\u00eas do Janeiro Branco, dedicado \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de cuidar da sa\u00fade mental, a ANAMT avalia o impacto do adoecimento ps\u00edquico na vida dos trabalhadores e na sociedade. \u201c\u00c9 preciso que nossos m\u00e9dicos permane\u00e7am atentos e ao lado dos trabalhadores para orient\u00e1-los sobre como enfrentar os desafios relacionados \u00e0 sa\u00fade mental e emocional\u201d, destacou o presidente da entidade, Francisco Cortes Fernandes.<\/p>\n<p>O levantamento analisou afastamentos do trabalho superiores a 15 dias, per\u00edodo em que o trabalhador passa a receber benef\u00edcio previdenci\u00e1rio do INSS. O intervalo analisado vai de janeiro de 2023 a novembro de 2025. Para Francisco Cortes Fernandes, os n\u00fameros refletem apenas a face vis\u00edvel do problema.<\/p>\n<p>\u201cOs afastamentos mostram o est\u00e1gio mais grave do adoecimento. Antes disso, existe um contingente enorme de trabalhadores, atuando com sofrimento ps\u00edquico, mas ainda sem chegar ao ponto de se afastar formalmente. \u00c9 justamente nesse intervalo que o m\u00e9dico do trabalho tem papel decisivo ao identificar sinais, acolher o trabalhador e contribuir para a preven\u00e7\u00e3o desses afastamentos\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Crescimento acentuado<\/strong> \u2013 Os registros do INSS mostram um crescimento acentuado dos afastamentos por transtornos mentais no tri\u00eanio analisado. Em 2023, foram concedidos 219.850 benef\u00edcios. Em 2024, esse n\u00famero saltou para 367.909 e, em 2025, j\u00e1 alcan\u00e7ou 393.670 concess\u00f5es at\u00e9 o m\u00eas de novembro. Mesmo sem dezembro, o volume de 2025 \u00e9 79% superior ao total registrado em todo o ano de 2023 (ver tabela abaixo).<\/p>\n<p>A progress\u00e3o tamb\u00e9m se reflete no impacto financeiro: o custo dos benef\u00edcios acompanhou a curva ascendente e ultrapassou o montante de R$ 954 milh\u00f5es s\u00f3 no \u00faltimo ano. Os dados consideram benef\u00edcios concedidos, incluindo aux\u00edlio-doen\u00e7a previdenci\u00e1rio, aux\u00edlio-doen\u00e7a por acidente do trabalho, aposentadoria por invalidez previdenci\u00e1ria e aposentadoria por invalidez de acidente do trabalho.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Francisco Cortes Fernandes, \u201ca sa\u00fade mental passou a ocupar um espa\u00e7o central entre as causas de incapacidade laboral no pa\u00eds, exigindo uma resposta t\u00e9cnica e preventiva muito mais consistente\u201d, aponta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ansiedade &#8211;<\/strong> Pelo levantamento da ANAMT, a ansiedade figura como a principal causa isolada de afastamentos por sa\u00fade mental. Os registros classificados como F41 (outros transtornos ansiosos) quase dobraram no per\u00edodo analisado. Foram de 81.874 casos, em 2023, para 157.235, em 2025. Apenas esse c\u00f3digo respondeu por cerca de 40% de todos os afastamentos por transtornos mentais no \u00faltimo ano do levantamento.<\/p>\n<p>Os transtornos de ansiedade s\u00e3o caracterizados por medo excessivo, preocupa\u00e7\u00e3o persistente e sensa\u00e7\u00e3o constante de amea\u00e7a, mesmo na aus\u00eancia de risco real. No ambiente de trabalho, costumam estar associados \u00e0 sobrecarga, press\u00e3o por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade das rotinas, o que favorece a evolu\u00e7\u00e3o silenciosa dos quadros.<\/p>\n<p>Segundo a m\u00e9dica do trabalho Leticia Maria Akel Mameri Tr\u00e9s, vice coordenadora da Comiss\u00e3o de Psiquiatria do Trabalho da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria (ABP), os sinais mais frequentes desse problema no contexto laboral s\u00e3o irritabilidade, dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o muscular, ins\u00f4nia, sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia constante e queda progressiva da produtividade. \u201cQuando esses sinais s\u00e3o identificados precocemente pelo m\u00e9dico do trabalho, ainda \u00e9 poss\u00edvel ajustar demandas e interromper o ciclo de adoecimento\u201d, aponta a especialista.<\/p>\n<p><strong>Depress\u00e3o \u2013<\/strong> Por sua vez, a depress\u00e3o \u00e9 um transtorno caracterizado por humor persistentemente deprimido, perda de interesse ou prazer nas atividades, fadiga intensa e preju\u00edzo funcional significativo. No ambiente profissional, o quadro costuma se instalar de forma gradual, com impacto direto sobre a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o, a tomada de decis\u00f5es e a manuten\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho. Let\u00edcia Tr\u00e9s explica que o enfrentamento desse problema no ambiente laboral passa por a\u00e7\u00f5es estruturadas em conjunto com o m\u00e9dico do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cEntre as medidas a serem tomadas est\u00e3o o rastreamento regular de sinais de altera\u00e7\u00e3o de humor nas avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, com reavalia\u00e7\u00f5es especialmente ap\u00f3s mudan\u00e7as organizacionais, al\u00e9m de ajustes tempor\u00e1rios das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como redu\u00e7\u00e3o de carga, maior previsibilidade de demandas e pausas programadas\u201d, pontua. Segundo ela, o acesso ao cuidado especializado, com encaminhamento para psic\u00f3logos ou psiquiatras, al\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o clara sobre direitos e confidencialidade, tamb\u00e9m \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Do ponto de vista previdenci\u00e1rio, de acordo com o levantamento, os transtornos depressivos representam o maior impacto global entre as causas de afastamento por sa\u00fade mental. Em 2025, os epis\u00f3dios depressivos somaram 122.222 afastamentos, enquanto o transtorno depressivo recorrente respondeu por 60.715 casos. Juntos, esses problemas totalizaram 182.937 benef\u00edcios concedidos, quase metade de toda a demanda por sa\u00fade mental registrada no per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Burnout<\/strong> \u2013 Entre os afastamentos analisados, o Burnout apresentou o crescimento percentual mais expressivo do per\u00edodo. Os registros triplicaram, passando de 1.760, em 2023, para 6.985, em 2025. Esse avan\u00e7o ocorre em um momento de maior clareza conceitual sobre o que caracteriza esse quadro. A s\u00edndrome \u00e9 definida como um estado de esgotamento f\u00edsico e emocional diretamente relacionado ao trabalho, decorrente de estresse cr\u00f4nico n\u00e3o gerenciado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, esse entendimento foi refor\u00e7ado por uma mudan\u00e7a crucial na classifica\u00e7\u00e3o internacional da doen\u00e7a. Com a transi\u00e7\u00e3o da CID-10 para a CID-11, o Burnout deixou de ser descrito de forma gen\u00e9rica, como um \u201cestado de esgotamento vital\u201d, e passou a ser reconhecido oficialmente como um fen\u00f4meno estritamente ocupacional, resultante do estresse cr\u00f4nico no local de trabalho.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome foi inclu\u00edda no cap\u00edtulo de \u201cProblemas associados ao emprego ou desemprego\u201d, sob o c\u00f3digo QD85, e passou a contar com crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos mais objetivos, baseados em uma tr\u00edade sintomatol\u00f3gica clara: exaust\u00e3o ou esgotamento de energia, distanciamento mental ou atitudes negativas em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho e redu\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia profissional. No Brasil, embora a CID-11 j\u00e1 venha sendo utilizada de forma gradual, a ado\u00e7\u00e3o plena da nova classifica\u00e7\u00e3o nos sistemas oficiais de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade est\u00e1 prevista para janeiro de 2027.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, essa atualiza\u00e7\u00e3o facilita a identifica\u00e7\u00e3o do nexo causal entre o adoecimento e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, com reflexos diretos nos direitos do trabalhador, como o afastamento pelo INSS na modalidade acident\u00e1ria, a emiss\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o de Acidente de Trabalho (CAT) e a estabilidade provis\u00f3ria ap\u00f3s o retorno.<\/p>\n<p>\u201cO reconhecimento do Burnout na CID-11 como um fen\u00f4meno ocupacional \u00e9 um avan\u00e7o importante, porque d\u00e1 nome, crit\u00e9rio e nexo a um adoecimento que h\u00e1 anos j\u00e1 impacta a vida dos trabalhadores. Isso fortalece o diagn\u00f3stico, a preven\u00e7\u00e3o e a responsabiliza\u00e7\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d, afirma o presidente da ANAMT.<\/p>\n<p><strong>Tipo de benef\u00edcio, regi\u00f5es e g\u00eanero <\/strong>&#8211; O detalhamento dos afastamentos por tipo de benef\u00edcio revela que a maior parte dos registros est\u00e1 concentrada naqueles gerados por incapacidade tempor\u00e1ria, especialmente nos aux\u00edlios-doen\u00e7a. Esse \u00e9 o mais concedido nos casos de adoecimento mental, com 198.432 registros, em 2023. Esse n\u00famero saltou para 344.220, em 2024, e alcan\u00e7ou 365.684, em 2025.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m apontam para o aumento de quadros de maior gravidade, refletidos no crescimento dos benef\u00edcios por incapacidade permanente. As aposentadorias por invalidez decorrentes de problemas de sa\u00fade mental quase triplicaram no per\u00edodo analisado. Esse indicador foi 1.849 concess\u00f5es, em 2023, para 2.386, em 2024, chegando a 5.358, em 2025.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos casos, em 2025, o Sudeste concentrou mais da metade dos afastamentos registrados no pa\u00eds at\u00e9 novembro, confirmando-se como o principal polo do problema em n\u00fameros absolutos. Foram 207.196 afastamentos na regi\u00e3o, impulsionados por S\u00e3o Paulo (107.919), Minas Gerais (60.126) e Rio de Janeiro (33.302). Esses tr\u00eas estados, juntos, superam o volume total de benef\u00edcios de quatro regi\u00f5es brasileiras. Na sequ\u00eancia aparece o Sul, com 74.607 registros, com destaque para Rio Grande do Sul (30.093) e Santa Catarina (25.919).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Problemas de ansiedade, depress\u00e3o, estresse grave, uso de \u00e1lcool e s\u00edndrome de Burnout: essas s\u00e3o as principais causas, no Brasil, de afastamento do trabalho decorrente de quadros mentais diagnosticados. 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