{"id":39565,"date":"2020-01-21T15:54:03","date_gmt":"2020-01-21T18:54:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=39565"},"modified":"2020-01-21T15:54:03","modified_gmt":"2020-01-21T18:54:03","slug":"medico-com-sintomas-de-depressao-tem-95-mais-chance-de-relatar-erro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2020\/01\/21\/medico-com-sintomas-de-depressao-tem-95-mais-chance-de-relatar-erro\/","title":{"rendered":"M\u00e9dico com sintomas de depress\u00e3o tem 95% mais chance de relatar erro"},"content":{"rendered":"<p>Um artigo veiculado na <a href=\"https:\/\/jamanetwork.com\/journals\/jamanetworkopen\/fullarticle\/2755851\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">revista m\u00e9dica <em>Jama Network Open<\/em><\/a> traz informa\u00e7\u00f5es relevantes sobre a associa\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental de profissionais da medicina e erros m\u00e9dicos.\u00a0 Segundo a pesquisadora Karina Pereira Lima, primeira autora do artigo veiculado em novembro de 2019, o texto apresenta um indicador preocupante: um m\u00e9dico com sintomas depressivos tem 95% mais chances de relatar ter cometido um erro m\u00e9dico, na compara\u00e7\u00e3o com colegas de profiss\u00e3o que n\u00e3o apresentam estes sintomas. \u201cExistem diversos estudos que demonstram que a depress\u00e3o e os sintomas depressivos s\u00e3o altamente prevalentes entre m\u00e9dicos, que a preval\u00eancia \u00e9 maior do que na popula\u00e7\u00e3o geral. Isso vai para dois lugares. Claro que h\u00e1 o preju\u00edzo para o pr\u00f3prio m\u00e9dico. E, de duas d\u00e9cadas para c\u00e1, os estudos v\u00eam sugerindo que a sa\u00fade mental do m\u00e9dico e dos outros profissionais de sa\u00fade est\u00e1 associada \u00e0 qualidade do cuidado que eles prestam aos pacientes\u201d, conta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Para chegar aos resultados, Karina e seus coautores fizeram uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica da literatura m\u00e9dica que explora a associa\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental dos profissionais e erros m\u00e9dicos. A pesquisa foi desenvolvida no per\u00edodo em que Karina esteve na Escola de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, para um est\u00e1gio de pesquisa. Ela viajou durante o doutorado do programa de Sa\u00fade Mental da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP) da USP.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve confundir a ocorr\u00eancia de sintomas depressivos com um diagn\u00f3stico de depress\u00e3o. A literatura m\u00e9dica revisada no trabalho utiliza avalia\u00e7\u00f5es por invent\u00e1rio. Isso significa que os m\u00e9dicos que participaram das pesquisas responderam a um question\u00e1rio que ajuda a aferir condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental. Os invent\u00e1rios identificam sintomas t\u00edpicos, como humor deprimido na maior parte do tempo, perda de prazer e interesse em atividades, altera\u00e7\u00f5es de apetite, altera\u00e7\u00f5es de sono e sentimento de culpa inadequada. \u201cEsses invent\u00e1rios v\u00e3o perguntar sobre esses sintomas de depress\u00e3o. Se a pessoa atinge um determinado <em>score<\/em>, isso \u00e9 sugestivo de que ela apresenta depress\u00e3o\u201d, explica Karina.<\/p>\n<p>No entanto, s\u00f3 seria poss\u00edvel afirmar que esses m\u00e9dicos t\u00eam depress\u00e3o se eles tivessem passado por uma entrevista cl\u00ednica com um profissional de sa\u00fade mental qualificado para estabelecer o diagn\u00f3stico \u2013 o que n\u00e3o foi o caso.<\/p>\n<h3><strong>Rela\u00e7\u00e3o bidirecional<\/strong><\/h3>\n<p>Al\u00e9m de calcular a probabilidade de m\u00e9dicos relatarem problemas, o trabalho de Karina tamb\u00e9m sugere que tanto erros m\u00e9dicos podem causar sintomas depressivos quanto o contr\u00e1rio. Nos dados analisados, m\u00e9dicos que cometeram um erro tiveram risco 67% maior de apresentar sintomas depressivos no futuro, na compara\u00e7\u00e3o com m\u00e9dicos que n\u00e3o relataram erros. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, a presen\u00e7a de sintomas depressivos resultava em um risco relativo de 62% de relatar um erro m\u00e9dico no futuro.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros trazem implica\u00e7\u00f5es importantes para o cuidado com os pacientes. Erros m\u00e9dicos est\u00e3o listados entre as causas dos \u201ceventos adversos\u201d ocorridos dentro de hospitais. Segundo dados do Instituto de Estudos de Sa\u00fade Suplementar da UFMG, 54.769 pessoas morreram em 2017 em decorr\u00eancia de eventos adversos graves relacionados \u00e0 assist\u00eancia hospitalar. Mais de 36 mil desses casos poderiam ter sido prevenidos. S\u00e3o n\u00fameros que constam no 2\u00ba Anu\u00e1rio da Seguran\u00e7a Assistencial Hospitalar no Brasil, produzido pelo instituto da UFMG. O anu\u00e1rio classifica como evento adverso qualquer incidente que resulte em dano ao paciente.<\/p>\n<p>Para avaliar a magnitude da associa\u00e7\u00e3o entre erros m\u00e9dicos e sintomas depressivos, os autores do artigo publicado na <em>Jama\u00a0Network Open<\/em> analisaram estatisticamente um conjunto de dados extra\u00eddos de 11 estudos, utilizando uma metodologia conhecida como meta-an\u00e1lise. Os trabalhos analisados foram selecionados de acordo com alguns crit\u00e9rios, como a indexa\u00e7\u00e3o em bases de dados da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e ter avaliado os sintomas depressivos nos m\u00e9dicos por meio de invent\u00e1rios validados para a cultura local. Pa\u00eds de origem e idioma de publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram fatores considerados na sele\u00e7\u00e3o \u2013 nove dos trabalhos analisados foram feitos nos EUA, mas houve tamb\u00e9m publica\u00e7\u00f5es do Jap\u00e3o e da Coreia do Sul.<\/p>\n<p>Segundo Karina, a maior limita\u00e7\u00e3o desta abordagem est\u00e1 no conte\u00fado dos estudos selecionados para an\u00e1lise, j\u00e1 que a maioria deles se apoia em relatos an\u00f4nimos dos m\u00e9dicos, sem verificar as informa\u00e7\u00f5es por meio de revis\u00e3o dos prontu\u00e1rios. \u201cEmbora a gente tenha estudos demonstrando que a revis\u00e3o de prontu\u00e1rios e o relato dos m\u00e9dicos, quando perguntados sobre erros m\u00e9dicos importantes, t\u00eam uma correla\u00e7\u00e3o alta, a gente precisa de mais estudos que v\u00e3o verificar erros m\u00e9dicos sendo avaliados por outras pessoas, n\u00e3o dependendo do relato do m\u00e9dico em si\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<h3 id=\"attachment_156871\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-156871\"><strong>Preven\u00e7\u00e3o e tratamento<\/strong><\/h3>\n<p>Para Sonia Regina Loureiro, professora da FMRP e orientadora de Karina na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, reduzir e prevenir a depress\u00e3o entre os m\u00e9dicos exige dois focos distintos de aten\u00e7\u00e3o, um nas institui\u00e7\u00f5es e outro nos pr\u00f3prios m\u00e9dicos, especialmente naqueles que s\u00e3o residentes em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es formadoras de m\u00e9dicos devem propor \u201cprogramas de preven\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento e o enfrentamento dos problemas de sa\u00fade mental, os quais s\u00e3o frequentes e persistentes\u201d e \u201cavalia\u00e7\u00f5es organizacionais cont\u00ednuas e sigilosas\u201d, afirma Sonia, que \u00e9 coautora do artigo. Ela defende que as institui\u00e7\u00f5es devem tamb\u00e9m \u201coferecer al\u00e9m dos treinamentos t\u00e9cnicos estrat\u00e9gias sistematizadas de desenvolvimento de recursos pessoais como parte da forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e valorizar e oferecer programas de interven\u00e7\u00e3o que abordem tanto estrat\u00e9gias individuais quanto institucionais de tratamento dos problemas de sa\u00fade mental, em especial da depress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 no n\u00edvel do indiv\u00edduo, Sonia recomenda que os m\u00e9dicos identifiquem sinais e sintomas de depress\u00e3o e busquem ajuda adequada, evitando a automedica\u00e7\u00e3o e valorizando a abordagem farmacol\u00f3gica bem indicada. \u00c9 preciso tamb\u00e9m \u201cse abrir para as m\u00faltiplas perspectivas de tratamento, n\u00e3o se fechando exclusivamente ao tratamento farmacol\u00f3gico como alternativa, considerando as possibilidades da psicoterapia e de abordagens de relaxamento e outras de autoconhecimento como recursos que podem favorecer a resposta ao tratamento e prevenir as reca\u00eddas\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p>Ela acrescenta, ainda, que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cdesenvolver a percep\u00e7\u00e3o das adversidades e desafios pessoais relativos ao exerc\u00edcio profissional do m\u00e9dico, de modo a reconhecer a influ\u00eancia dessas condi\u00e7\u00f5es na pr\u00e1tica m\u00e9dica\u201d.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Jornal da USP)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um artigo veiculado na revista m\u00e9dica Jama Network Open traz informa\u00e7\u00f5es relevantes sobre a associa\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental de profissionais da medicina e erros m\u00e9dicos.\u00a0 Segundo a pesquisadora Karina Pereira Lima, primeira autora do artigo veiculado em novembro de 2019, o texto apresenta um indicador preocupante: um m\u00e9dico com sintomas depressivos tem 95% mais chances [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":36898,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39565"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39565"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39565\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}