{"id":39264,"date":"2019-11-13T12:53:43","date_gmt":"2019-11-13T15:53:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=39264"},"modified":"2019-11-13T12:53:43","modified_gmt":"2019-11-13T15:53:43","slug":"para-78-trabalho-e-a-falta-dele-sao-responsaveis-por-doenca-e-sofrimento-psiquico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/11\/13\/para-78-trabalho-e-a-falta-dele-sao-responsaveis-por-doenca-e-sofrimento-psiquico\/","title":{"rendered":"Para 78%, trabalho e a falta dele s\u00e3o respons\u00e1veis por doen\u00e7a e sofrimento ps\u00edquico"},"content":{"rendered":"<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content line-height4 reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div data-share-text=\"\" data-news-content-text=\"\" data-disable-copy=\"\" data-continue-reading=\"\" data-continue-reading-hide-others=\".js-continue-reading-hidden\">\n<div>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o, que nunca foi f\u00e1cil, por um tempo parecia andar bem. Havia op\u00e7\u00f5es. Os anos passaram, a crise chegou e se estabeleceu e os problemas se tornaram maiores e cada vez mais claros.<\/p>\n<p>Dentro ou fora do mercado formal, os impactos da rela\u00e7\u00e3o com o trabalho na sa\u00fade mental do brasileiro se deterioram, e em todos os n\u00edveis de ocupa\u00e7\u00e3o, de acordo com mais de 800 entrevistados, entre junho e julho, por uma pesquisa ainda in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Ansiedade, depress\u00e3o, ins\u00f4nia, s\u00edndrome do p\u00e2nico, burnout e\u00a0uso de rem\u00e9dios controlados, \u00e1lcool e drogas il\u00edcitas, entre outros, s\u00e3o algumas das consequ\u00eancias listadas.<\/p>\n<p>Realizado por uma consultoria especializada em cultura organizacional de empresas, em parceria com o soci\u00f3logo Ruy Braga, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), o estudo colheu as respostas em question\u00e1rio disponibilizado na internet durante dois meses.<\/p>\n<\/div>\n<p>A partir do\u00a0m\u00e9todo de\u00a0estudo de caso ampliado, a pesquisa\u00a0fundamenta-se\u00a0na teoria do psicanalista franc\u00eas\u00a0Christophe\u00a0Dejours, especialista em medicina do trabalho e autor, entre outros, de &#8220;A Loucura do Trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>A amostra foi definida segundo crit\u00e9rios como renda, sexo e localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica \u2014vari\u00e1veis oferecidas por ferramentas online que evitam direcionamento\u00a0a pessoas que tenderiam a responder afirmativamente ao question\u00e1rio.<\/p>\n<div>\n<p>Apesar de perene, o problema se agravou depois de 2015, com a percep\u00e7\u00e3o de que a derrocada econ\u00f4mica que atingira o pa\u00eds era uma realidade inevit\u00e1vel \u00e0 maioria dos trabalhadores. A sensa\u00e7\u00e3o de estar com o emprego em perigo \u00e9 uma das causas alegadas de sofrimento, n\u00e3o por acaso.<\/p>\n<p>Um ano antes, em 2014, o Brasil havia registrado a menor taxa m\u00e9dia de desemprego da s\u00e9rie hist\u00f3rica (6,8%). Em 2015, esse n\u00famero passou a 9,8%, segundo o IBGE.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s queda no trimestre passado, a taxa chegou a 11,8%, mas com crescimento e novo recorde de informalidade, que atinge 41,4% dos ocupados.<\/p>\n<p>Para 78% dos entrevistados, o trabalho contribui ou j\u00e1 contribuiu com seu adoecimento.<\/p>\n<p>Entre as mulheres que se declaram negras, o percentual \u00e9 maior: 85%. \u00c9 o mesmo \u00edndice para aqueles que s\u00e3o empregados com v\u00ednculo formal \u2014o que, ao lado da variedade de perfis dos entrevistados, aponta para a multiplicidade de fatores que desencadeiam o estado de sofrimento.<\/p>\n<p>Numa escala de 1 a 10 para a concord\u00e2ncia que o trabalho, ou a falta dele, contribuem ou j\u00e1 contribu\u00edram em casos de adoecimento e sofrimento ps\u00edquico \u2014sendo 1 nenhuma contribui\u00e7\u00e3o e 10 muita contribui\u00e7\u00e3o\u2014, a m\u00e9dia ponderada das respostas foi 7,5.<\/p>\n<p>Para Thatiana Cappellano, da consultoria 4CO, e uma das autoras da pesquisa, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o relacionar o trabalho com a pr\u00f3pria identidade do trabalhador. \u201cH\u00e1 empresas que colocam o nome dela no nome dos funcion\u00e1rios [para ser usado durante o expediente], ou seja, h\u00e1 uma despersonaliza\u00e7\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>A pesquisa recorreu a entrevistas em profundidade com grupos focais. Foram ouvidas 80 pessoas nesta fase.<\/p>\n<p>Os resultados convergiram para cinco conclus\u00f5es:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>a) a viol\u00eancia do trabalho, em seus aspectos simb\u00f3licos e concretos: como as cobran\u00e7as familiares por renda e uma posi\u00e7\u00e3o social, por exemplo;<\/p>\n<p>b) a falta de coer\u00eancia do mercado: com regras nem sempre claras de promo\u00e7\u00e3o e de preenchimento de vagas, s\u00e3o alguns dos achados;<\/p>\n<p>c) o sofrimento causado por superiores: aqui surgem casos de ass\u00e9dio e omiss\u00f5es de chefes ante o problema;<\/p>\n<p>d) a escravid\u00e3o de um emprego que n\u00e3o gera realiza\u00e7\u00e3o, mas que oferece benef\u00edcios como plano de sa\u00fade;<\/p>\n<p>e) as ang\u00fastias decorrentes das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e o futuro do trabalho: que muitas vezes leva \u00e0 falta de reflex\u00e3o e preparo para o mercado.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um sentimento de perda de prote\u00e7\u00e3o social, de aumento da inseguran\u00e7a e espolia\u00e7\u00e3o dos direitos\u201d, diz o professor Ruy Braga. \u201c\u00c9 uma percep\u00e7\u00e3o de que o trabalho bloqueia o potencial das pessoas.\u201d<\/p>\n<p>Os trabalhadores foram divididos em diferentes classes: de jovens entrantes no mercado a trabalhadores com fun\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o \u2014chamados de C-level (com assento em boards e conselhos empresariais, por exemplo); de aut\u00f4nomos e informais, a servidores p\u00fablicos, desempregados e desalentados (que deixaram de procurar emprego).<\/p>\n<p>Para todos esses, a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, ou a falta dele, passa por quest\u00f5es como ass\u00e9dio moral, incluindo xingamentos e agress\u00f5es, cobran\u00e7a por maior produtividade, cortes constantes, ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es, falta de perspectivas e de clareza em promo\u00e7\u00f5es, cobran\u00e7as da fam\u00edlia, incapacidade e falta de vontade de refletir sobre o futuro.<\/p>\n<\/div>\n<h3>Metas + Press\u00e3o &#8211; Estrutura = Doen\u00e7a<\/h3>\n<div>\n<p>O estabelecimento de metas, e a cobran\u00e7a, associada a defici\u00eancias do sistema de trabalho que, por vezes, atrapalha as pr\u00f3prias metas, e as constantes mudan\u00e7as nas leis que regem a concess\u00e3o de benef\u00edcios, aos poucos, formaram o caldo ideal para o desenvolvimento de problemas psicol\u00f3gicos na analista de seguro social do INSS Patr\u00edcia Meirelles, 52.<\/p>\n<p>Somado\u00a0a isso, o desgaste decorrente do atendimento ao p\u00fablico por quase 15 anos e problemas pessoais a levaram a se afastar durante 40 dias do trabalho para cuidar de uma depress\u00e3o e de crises de ansiedade generalizada.<\/p>\n<p>A funcion\u00e1ria do INSS se enquadra em uma categoria de trabalhadores analisados pela pesquisa que relatam uma s\u00e9rie de problemas decorrentes da imagem que os funcion\u00e1rios p\u00fablicos representam para grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um \u00f3rg\u00e3o que j\u00e1 tem um estigma, de que os velhinhos \u2018morrem na fila\u2019. As pessoas j\u00e1 falam com pedras na m\u00e3o\u201d, diz. \u201cN\u00e3o estou l\u00e1 para tirar o direito de ningu\u00e9m, mas para reconhecer de quem tem\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ainda assim, pode ser pior para as outras categorias, reconhece Patr\u00edcia. \u201cVendo o panorama das pessoas que trabalham comigo e das que est\u00e3o no setor privado tenho gratid\u00e3o ao INSS. Cada pessoa\u00a0que chega aqui\u00a0vem para somar. Ningu\u00e9m amea\u00e7a o cargo de ningu\u00e9m\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quando indagados se deixariam ou trocariam de trabalho se pudessem, 55% do geral responderam positivamente. Entre os celetistas, 65%. Entre as mulheres negras, 83%.<\/p>\n<p>Diante desses problemas, a resposta do trabalhador \u00e9 a \u201ccria\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras\u201d, ou seja, estrat\u00e9gias defensivas.<\/p>\n<p>Assim, de acordo com as respostas, para os que est\u00e3o afastados por motivo de sa\u00fade \u00e9 importante, por exemplo, mostrar que est\u00e3o deprimidos, que as coisas n\u00e3o v\u00e3o nada bem. Afinal, est\u00e3o doentes.<\/p>\n<p>Para os desalentados, paradoxalmente, vale exatamente o oposto. \u00c9 necess\u00e1rio mostrar-se otimista, \u00e0 espera de uma oportunidade.<\/p>\n<p>Desempregados precisam mostrar \u2014para a fam\u00edlia, principalmente\u2014 que est\u00e3o se movimentando, que a procura n\u00e3o para nunca, mesmo que seja em dias e hor\u00e1rios em que n\u00e3o h\u00e1 nada para se procurar.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Nesse contexto, o empreendedorismo surge com sa\u00edda por vezes perigosa. \u201cQuando se fala de empreendedorismo h\u00e1 um imagin\u00e1rio com [Mark]\u00a0Zuckerberg [fundador do Facebook], Bill Gates [fundador da Microsoft], mas n\u00e3o \u00e9 essa a realidade. N\u00e3o vai haver um milh\u00e3o de Zuckerbergs\u201d, diz Thatiana.<\/p>\n<p>&#8220;O indiv\u00edduo, numa certa altura, se depara com a impossibilidade de vencer&#8221;, afirma Braga, explicitando que uma das\u00a0consequ\u00eancias pode\u00a0ser a\u00a0depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre as conclus\u00f5es, uma das mais preocupantes \u00e9 a que diz respeito ao futuro do trabalho. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), dois ter\u00e7os dos empregos nos pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil, s\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0 automa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para os jovens, ante a perda de direitos trabalhistas, surge o discurso da n\u00e3o-inclus\u00e3o. \u201cA possibilidade de acessar [esses direitos] foi ficando muito distante, o que faz com ele olhe isso de uma forma muito distante\u201d, diz Braga. \u201cEles dizem coisas como: \u2018fa\u00e7o meu corre, pago minha balada, mas n\u00e3o tenho nada a ver com isso&#8217;. Ele n\u00e3o coloca a libido nessa empreitada.&#8221;<\/p>\n<p>Sem perspectiva, o resultado \u00e9 ficar preso no presente. \u00c9 como se os mais jovens n\u00e3o se dessem conta que precisar\u00e3o ingressar alguma hora nesse mercado de trabalho e, para isso, precisar\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8220;Est\u00e3o imersos em ocupa\u00e7\u00f5es pouco produtivas porque h\u00e1 uma destrui\u00e7\u00e3o do horizonte futuro&#8221;, diz o professor da USP.\u00a0&#8220;Acaba virando um problema de seguridade social e previdenci\u00e1rio, porque n\u00e3o vai estudar, n\u00e3o vai se preparar e n\u00e3o vai ocupar os melhores postos de trabalho quando houver uma retomada da economia \u2014o que, eventualmente, vai acontecer.&#8221;<\/p>\n<p><em>(Fonte: Folha de S. Paulo)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o, que nunca foi f\u00e1cil, por um tempo parecia andar bem. Havia op\u00e7\u00f5es. 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