{"id":39179,"date":"2019-10-29T10:41:02","date_gmt":"2019-10-29T13:41:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=39179"},"modified":"2019-10-29T10:41:02","modified_gmt":"2019-10-29T13:41:02","slug":"policia-bandido-e-arma-sao-rotina-de-medicos-de-emergencia-no-rj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/10\/29\/policia-bandido-e-arma-sao-rotina-de-medicos-de-emergencia-no-rj\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia, bandido e arma s\u00e3o rotina de m\u00e9dicos de emerg\u00eancia no RJ"},"content":{"rendered":"<p>Foram quatro horas de cirurgia. Silvia (nome fict\u00edcio) teve que drenar o t\u00f3rax, abrir a regi\u00e3o cervical e reverter a destrui\u00e7\u00e3o de vasos sangu\u00edneos importantes do jovem baleado. Toda aquela \u201ctrabalheira danada\u201d, como ela chamou, por\u00e9m, foi pelo ralo algumas horas depois.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, um grupo de traficantes entrou no hospital fingindo procurar atendimento ortop\u00e9dico e invadiu o espa\u00e7o onde ele estava internado com outros 11 pacientes para \u201cterminar o servi\u00e7o\u201d. O sujeito morreu entubado na maca, metralhado, enquanto os m\u00e9dicos e enfermeiros se escondiam em suas salas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria aconteceu h\u00e1 cerca de 15 anos, mas a cirurgi\u00e3 \u2014que n\u00e3o quis se identificar por medo\u2014 n\u00e3o esquece dos detalhes. Junto a essa, ela relembra in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que viveu e ainda vive nos quase 30 anos de carreira em emerg\u00eancias do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>As unidades de sa\u00fade do estado acumulam o maior n\u00famero de mortes por causas violentas do pa\u00eds, considerando agress\u00f5es (principalmente por arma de fogo) e interven\u00e7\u00f5es policiais. Foram 2.296 \u00f3bitos em 2017, segundo o Datasus, ou uma v\u00edtima a cada quatro horas.<\/p>\n<p>Com esse tipo de paciente, vem uma rotina que deveria ser assunto de pol\u00edcia, mas \u00e9 a realidade di\u00e1ria dos m\u00e9dicos e outros profissionais de muitos prontos-socorros fluminenses.<\/p>\n<p>\u201cBaleado \u00e9 sin\u00f4nimo de viol\u00eancia e selvageria. Por mais que a gente n\u00e3o queira pensar, isso entra na nossa cabe\u00e7a. Mas acabamos nos acostumando, nos mantemos cronicamente assustados\u201d, resume o cl\u00ednico J\u00falio Noronha, chefe da emerg\u00eancia do Hospital Federal de Bonsucesso por cerca de 20 anos.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o voltou \u00e0 pauta depois que, na madrugada de 21 de setembro, um grupo de policiais militares invadiu o mesmo local em que Silvia viveu momentos de terror anos atr\u00e1s, o hospital estadual Get\u00falio Vargas (zona norte), para tentar pegar o fragmento de proj\u00e9til de fuzil que estava no corpo da menina \u00c1gatha F\u00e9lix, 8.<\/p>\n<p>A menina havia sido atingida dentro de uma Kombi no Complexo do Alem\u00e3o quando voltava de um passeio com a m\u00e3e, e investigadores ainda apuram se o tiro partiu ou n\u00e3o de um policial.<\/p>\n<p>Naquela noite, a equipe m\u00e9dica n\u00e3o entregou a bala aos agentes, justamente porque estava acostumada com situa\u00e7\u00f5es daquele tipo \u2014logo, sabia que o procedimento oficial n\u00e3o era aquele.<\/p>\n<p>Normalmente, quando o cirurgi\u00e3o consegue retirar o proj\u00e9til de dentro do paciente, ele \u00e9 identificado, guardado e entregue \u00e0s pol\u00edcias Civil ou Militar, mas s\u00f3 ap\u00f3s ser solicitado por meio de um documento oficial.<\/p>\n<p>Foi nesse tipo de opera\u00e7\u00e3o que o cirurgi\u00e3o Jos\u00e9 J\u00falio Monteiro aprendeu, ainda na d\u00e9cada de 1990, os efeitos de cada calibre de fuzil. Ele foi chefe da cirurgia geral do hospital municipal Souza Aguiar (Centro) por nove anos e hoje atua no Miguel Couto (Leblon).<\/p>\n<p>\u201cNaquela \u00e9poca ningu\u00e9m sabia ainda a diferen\u00e7a de um tiro de fuzil, que expande e faz uma cavidade dentro do corpo. Hoje os m\u00e9dicos do RJ est\u00e3o todos habituados, s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o experientes porque normalmente essas v\u00edtimas j\u00e1 chegam mortas\u201d, conta.<\/p>\n<p>Outros procedimentos tamb\u00e9m precisaram ser adaptados \u00e0 viol\u00eancia da cidade.<\/p>\n<p>\u201cFoi quando come\u00e7amos a diagnosticar a chamada s\u00edndrome do compartimento abdominal. S\u00e3o casos de arma de fogo de muito trauma, em que o paciente evolui mal e o intestino fica t\u00e3o inchado que leva a um colapso circulat\u00f3rio\u201d, diz. \u201cDescobrimos que se abr\u00edssemos e deix\u00e1ssemos o intestino para fora, a press\u00e3o voltava na hora.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos ferimentos por tiros, esses m\u00e9dicos tamb\u00e9m est\u00e3o acostumados a uma conviv\u00eancia constante com policiais e criminosos na emerg\u00eancia. Pelo menos um PM fica sempre 24 horas de plant\u00e3o ali para registrar ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cA gente tem uma m\u00e1xima de hospital p\u00fablico\u201d, afirma o cirurgi\u00e3o ortop\u00e9dico Ricardo Farias.<\/p>\n<p>\u201cSempre que os policiais chegam correndo desesperados ou num grupo grande, \u00e9 porque algo deu errado. Quando \u00e9 bandido eles v\u00eam devagarinho, com a sirene desligada.\u201d<\/p>\n<p>Conselheiro do Cremerj (conselho de medicina), Farias trabalhou sete anos em prontos-socorros na capital.<\/p>\n<p>Se esse preso tem que ficar internado, o clima \u00e9 de tens\u00e3o. O medo \u00e9 haver tentativas de resgate pela quadrilha, por exemplo. Fica todo mundo incomodado, querendo estabilizar logo o paciente para que ele seja transferido para uma delegacia ou unidade prisional, relatam os m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Isso porque n\u00e3o existem mais hospitais penitenci\u00e1rios no Rio, apenas uma UPA no complexo prisional de Bangu (zona norte) que n\u00e3o atende casos de alta complexidade. Ent\u00e3o, o custodiado normalmente fica junto com os outros doentes, vigiado por policiais.<\/p>\n<p>Um caso que causou trauma no Rio foi o do traficante M\u00e1rcio Greick em 2001. Em um resgate cinematogr\u00e1fico, cerca de 20 homens com fuzis invadiram o hospital de Bonsucesso, desceram do quarto andar com o criminoso algemado \u00e0 cama, espancaram vigilantes, feriram pacientes e mataram um policial.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 comum ocorrerem amea\u00e7as e agress\u00f5es mais veladas a profissionais da sa\u00fade, normalmente em locais conflagrados.<\/p>\n<p>\u201cQuando sinto que tem alguma coisa errada, tento conversar o m\u00ednimo poss\u00edvel com o paciente, e, de prefer\u00eancia, pe\u00e7o sempre um policial por perto\u201d, conta Silvia, que hoje trabalha em unidades da Regi\u00e3o dos Lagos.<\/p>\n<p>Ela lembra de uma colega pediatra no hospital Get\u00falio Vargas que foi morta, anos atr\u00e1s, ap\u00f3s n\u00e3o atender ao pedido de um pai para que sua filha fosse examinada primeiro. \u201cEsse vai ser seu \u00faltimo plant\u00e3o\u201d, teria dito ele um dia antes do assassinato.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, uma paciente deu um tapa na cara de uma residente quando ela abriu a porta da sala de sutura para chamar o pr\u00f3ximo da fila abarrotada.<\/p>\n<p>No Hospital da Posse, em Nova Igua\u00e7u, outro pai nervoso cortou o rosto de uma m\u00e9dica com um canivete.<br \/>\nAs agress\u00f5es a m\u00e9dicos continuam sendo t\u00e3o frequentes que no ano passado o Cremerj decidiu criar um canal para comput\u00e1-las. De dezembro a agosto, foram registrados 69 casos \u2014um a cada quatro dias\u2014, alguns deles com ataques f\u00edsicos.<\/p>\n<p>No caso do cl\u00ednico Noronha, ex-chefe da emerg\u00eancia de Bonsucesso, as amea\u00e7as sa\u00edram dos corredores e entraram na pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o da unidade, a maior do estado. \u201cEu quero o Noronha morto e enterrado\u201d, teria dito numa conversa gravada um homem ligado \u00e0 antiga dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa gest\u00e3o est\u00e1 sendo investigada desde 2018 por suspeita de envolvimento com mil\u00edcias, que atuariam recebendo dinheiro para furar a fila de consultas e exames.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano, uma equipe do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade disse ter sido intimidada ao tentar fazer uma vistoria.<br \/>\nNoronha tamb\u00e9m n\u00e3o tira da cabe\u00e7a um outro caso que viveu no hospital em meados de 2010, quando a unidade ainda passava por longas reformas e a emerg\u00eancia era feita em cont\u00eaineres.<\/p>\n<p>\u201cChegou um Caveir\u00e3o da pol\u00edcia com nove corpos, nem sei por que levaram para l\u00e1, um estava com o tampo da cabe\u00e7a estourado.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de tudo, ressalta ele, m\u00e9dico \u00e9 m\u00e9dico. \u201cM\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 juiz, para a gente n\u00e3o faz diferen\u00e7a se \u00e9 policial, se \u00e9 bandido, se \u00e9 v\u00edtima de assalto. Voc\u00ea cuida de acordo com a gravidade do ferimento e pronto.\u201d<\/p>\n<p><em>(Fonte: Folha de S. Paulo)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram quatro horas de cirurgia. Silvia (nome fict\u00edcio) teve que drenar o t\u00f3rax, abrir a regi\u00e3o cervical e reverter a destrui\u00e7\u00e3o de vasos sangu\u00edneos importantes do jovem baleado. 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