{"id":37468,"date":"2019-06-10T13:11:49","date_gmt":"2019-06-10T16:11:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=37468"},"modified":"2019-06-10T13:11:49","modified_gmt":"2019-06-10T16:11:49","slug":"educacao-tem-62-afastamentos-por-transtorno-mental-ao-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/06\/10\/educacao-tem-62-afastamentos-por-transtorno-mental-ao-dia\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o tem 62 afastamentos por transtorno mental ao dia"},"content":{"rendered":"<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content line-height4 reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div data-share-text=\"\" data-news-content-text=\"\" data-disable-copy=\"\" data-continue-reading=\"\" data-continue-reading-hide-others=\".js-continue-reading-hidden\">\n<p>A capital teve em 2018 mais de 22 mil afastamentos por transtornos mentais entre professores e demais servidores da Secretaria Municipal da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estresse, depress\u00e3o, ansiedade e s\u00edndrome do p\u00e2nico est\u00e3o entre os problemas psiqui\u00e1tricos que levaram \u00e0 concess\u00e3o de 62 licen\u00e7as, por dia, em m\u00e9dia, entre educadores da gest\u00e3o Bruno Covas (PSDB).<br \/>\nOs n\u00fameros fazem parte de um levantamento exclusivo obtido via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o. No levantamento n\u00e3o constam faltas de um dia, por exemplo.<\/p>\n<p>Como comparativo, tamb\u00e9m no ano passado, a Pol\u00edcia Militar concedeu dois afastamentos por transtornos mentais ao dia, em m\u00e9dia, no estado.<\/p>\n<p>Tanto a Educa\u00e7\u00e3o municipal quanto a corpora\u00e7\u00e3o policial t\u00eam tamanhos semelhantes &#8211;ambas com aproximadamente 82 mil integrantes cada e \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que define os afastamentos nos dois casos.<\/p>\n<p>Segundo especialistas, os afastamentos dessa natureza s\u00e3o, geralmente, de longa dura\u00e7\u00e3o, quando \u00e9 necess\u00e1rio, inclusive, o aval de peritos da Cogess (Coordena\u00e7\u00e3o de Sa\u00fade do Servidor), respons\u00e1vel por validar as licen\u00e7as (veja as regras abaixo). E nem sempre os trabalhadores retornam para as fun\u00e7\u00f5es de origem, mas acabam readaptados &#8211;exercem outros cargos, n\u00e3o mais em sala de aula, por exemplo.<\/p>\n<p>Os transtornos mentais podem levar tanto \u00e0s explos\u00f5es em sala de aula quanto \u00e0 &#8220;implos\u00e3o&#8221; do indiv\u00edduo, como o ocorrido neste m\u00eas com uma professora de uma escola estadual em Carapicu\u00edba (Grande SP), onde alunos acabaram apreendidos por ofenderem a educadora e atirarem, entre outros, carteiras.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha uma jornada excessiva. Muitas aulas. Tr\u00eas per\u00edodos direto. Um dia acordei travado na cama e n\u00e3o consegui ir para o trabalho&#8221;, diz um professor de 42 anos, desde 2002 na rede p\u00fablica municipal. Ele sofria uma depress\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>&#8220;Como o sal\u00e1rio \u00e9 muito baixo, fui assumindo mais aulas para complementar a renda. E as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias desse trabalho, principalmente em salas lotadas e com problemas de indisciplina, colaboraram para o agravamento&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O educador sentiu tamb\u00e9m no bolso os efeitos da depress\u00e3o. &#8220;Toda a fam\u00edlia sofreu com a queda da renda. Eu me exonerei de um cargo da prefeitura e pedi demiss\u00e3o da escola particular. Foi um transtorno&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Hoje, o professor est\u00e1 readaptado. &#8220;Tenho um cargo na prefeitura, durante apenas um per\u00edodo&#8221;, diz.<\/p>\n<h3>Sem encanto<\/h3>\n<p>&#8220;Eu conseguia encantar os alunos e agora eu n\u00e3o me encanto&#8221;. \u00c9 assim que uma professora de 48 anos, afastada das salas e em readapta\u00e7\u00e3o, descreve a situa\u00e7\u00e3o que vive h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Com s\u00edndrome do p\u00e2nico e depress\u00e3o, a educadora est\u00e1 medicada e em tratamento psiqui\u00e1trico particular. Ela se recorda at\u00e9 hoje de quando se viu obrigada a buscar ajuda. &#8220;Eu cheguei \u00e0 escola chorando e minha diretora disse &#8216;voc\u00ea n\u00e3o tem culpa e deve tirar a licen\u00e7a, porque n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de assumir uma sala'&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A professora j\u00e1 tinha notado alguns sinais de que algo n\u00e3o estava bem. &#8220;Gaguejar numa sala de aula, ter pavor de aluno, n\u00e3o querer que uma crian\u00e7a de quatro anos te abrace. Isso n\u00e3o \u00e9 normal. A voz do\u00eda na alma&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A professora diz que h\u00e1 anos a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica vive um processo de difama\u00e7\u00e3o e que a desvaloriza\u00e7\u00e3o influencia todo o processo de transtorno mental.\u00a0&#8220;Sempre colocam que o professor \u00e9 mal preparado, quando n\u00f3s temos que estudar todos os dias&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A falta de apoio nas fam\u00edlias tamb\u00e9m choca a professora. &#8220;Quando chamava os pais para conversar, eles faziam muita chacota. &#8216;Ah, eu morri de rir do seu bilhete&#8217;. Fiquei irritada, porque o bilhete dizia que o neto da pessoa tinha batido em um coleguinha&#8221;, diz. &#8220;\u00c9 uma paix\u00e3o minha. Nasci querendo ser professora, a profiss\u00e3o que liberta um povo maltratado pelo governo.&#8221;<\/p>\n<h3>Alarme<\/h3>\n<p>A presidente da ANAMT (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Medicina do Trabalho), M\u00e1rcia Bandini, diz que o levantamento desperta preocupa\u00e7\u00e3o. O fato de quase a totalidade das doen\u00e7as mentais diagnosticadas serem relacionadas com transtornos do humor ou ao estresse s\u00e3o agravantes.<\/p>\n<p>&#8220;Os n\u00fameros s\u00e3o alarmantes e est\u00e3o alinhados com a realidade que a gente observa por meio de relatos, not\u00edcias de viol\u00eancia, desvaloriza\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma categoria que est\u00e1 amea\u00e7ada&#8221;, fala.<\/p>\n<p>Segundo a m\u00e9dica, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho afeta diretamente categorias como a dos professores, pelo &#8220;comprometimento quase vocacional&#8221; com o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Para M\u00e1rcia, o cen\u00e1rio de pobreza, desnutri\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia dom\u00e9stica exposto aos professores nas salas de aula \u00e9 um agravante. &#8220;Tem uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia na pr\u00f3pria escola. \u00c9 um ciclo perverso de adoecimento mental. O professor quer fazer bem feito, n\u00e3o consegue e encontra situa\u00e7\u00f5es desafiadoras, contra as quais n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de reagir.&#8221;<\/p>\n<p>A especialista fala que o presente tamb\u00e9m n\u00e3o colabora com a sa\u00fade mental dos professores. &#8220;O Brasil meio que perdeu a estrat\u00e9gia de desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o. Um terreno fr\u00e1gil se torna ainda mais pantonoso com corte de verbas e mais condena o professor do que o incentiva&#8221;, diz.<\/p>\n<h3>Conflitos<\/h3>\n<p>&#8220;Todos os conflitos familiares e sociais explodem na escola. E \u00e9 ali que a crian\u00e7a e o jovem ser\u00e3o pressionados&#8221;, afirma o professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Nelson Fragoso.<\/p>\n<p>Para Fragoso, a press\u00e3o \u00e9 muito grande, mas o professor precisa separar a vida profissional da pessoal e n\u00e3o tomar para si todos problemas. &#8220;N\u00e3o sou eu a pessoa que est\u00e3o confrontando, mas um sistema que eles [alunos] n\u00e3o aprenderam, n\u00e3o conhecem e repudiam. Repudiam porque \u00e9 diferente do que aprendem em casa ou no bairro onde vivem&#8221;, diz.<\/p>\n<p>O especialista do Mackenzie lembra que o professor precisa entender o seu papel \u00e0 frente de uma sala de aula. &#8220;N\u00e3o sou o &#8216;tio&#8217;, mas posso ser o mentor para ajudar a crescer, se desenvolver na vida, apesar de o mundo onde nasceu n\u00e3o ser legal&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Sobre quem j\u00e1 sente a sobrecarga, Fragoso d\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o. &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 bem, \u00e9 preciso se cuidar. Volta e atua legal com esse pessoal. Ser professor n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e n\u00e3o \u00e9 para todo mundo&#8221;, afirma.<\/p>\n<h3>Resposta<\/h3>\n<p>A prefeitura, sob gest\u00e3o Bruno Covas (PSDB), diz que a Secretaria de Gest\u00e3o constituiu um grupo de trabalho intersecretarial para discutir causas e solu\u00e7\u00f5es para diminui\u00e7\u00e3o de afastamentos.<\/p>\n<p>&#8220;Em compara\u00e7\u00e3o entre 2017 e 2018, o \u00edndice caiu de 7,31% para 6,09%, representando economia de R$ 101.857.339,00&#8221;, afirma, em nota.<\/p>\n<p>A gest\u00e3o diz entender a natureza do trabalho do professor e seus desafios, &#8220;especialmente quanto ao contato direto com crian\u00e7as e adolescentes&#8221;. Segundo a prefeitura, \u00e9 por isso que a Cogess faz encontros com diretores de escola, programas de promo\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, e de orienta\u00e7\u00e3o aos readaptados.<\/p>\n<p><em>(Fonte: S\u00e3o Paulo Agora)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A capital teve em 2018 mais de 22 mil afastamentos por transtornos mentais entre professores e demais servidores da Secretaria Municipal da Educa\u00e7\u00e3o. Estresse, depress\u00e3o, ansiedade e s\u00edndrome do p\u00e2nico est\u00e3o entre os problemas psiqui\u00e1tricos que levaram \u00e0 concess\u00e3o de 62 licen\u00e7as, por dia, em m\u00e9dia, entre educadores da gest\u00e3o Bruno Covas (PSDB). 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