{"id":37298,"date":"2019-05-21T11:30:35","date_gmt":"2019-05-21T14:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=37298"},"modified":"2019-05-21T11:30:35","modified_gmt":"2019-05-21T14:30:35","slug":"metade-das-mulheres-gravidas-sao-demitidas-na-volta-da-licenca-maternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/05\/21\/metade-das-mulheres-gravidas-sao-demitidas-na-volta-da-licenca-maternidade\/","title":{"rendered":"Metade das mulheres gr\u00e1vidas s\u00e3o demitidas na volta da licen\u00e7a-maternidade"},"content":{"rendered":"<p>A maternidade permanece pol\u00eamica para empregadas e empregadores. Quando uma trabalhadora engravida, o foco das empresas continua sendo nas \u201cperdas\u201d que ter\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos. O tempo passa, mas os empecilhos s\u00e3o os mesmos: receio de a m\u00e3e faltar ao trabalho, caso o filho passe mal; de ela pedir para chegar mais tarde para ir a uma reuni\u00e3o escolar; ou de se atrasar, devido \u00e0 exaust\u00e3o da rotina. Os benef\u00edcios da maternidade para as empresas e at\u00e9 para a economia do pa\u00eds, mesmo comprovados por diversos estudos, ainda s\u00e3o ignorados.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o do senso comum, especialistas apontam que as m\u00e3es s\u00e3o mais produtivas e flex\u00edveis, porque as atividades neurais, ligadas \u00e0 criatividade, aumentam durante a gesta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o h\u00e1bito de acumular duplas jornadas as deixam com maior capacidade de otimizar o tempo \u2014 tornam a vida das mulheres mais f\u00e1cil no mercado de trabalho. Ainda assim, persiste o pensamento de que o empregador n\u00e3o suportar\u00e1 o tempo de afastamento, sem preencher aquela necess\u00e1ria vaga. Fora isso, h\u00e1 o temor de que o per\u00edodo em que fica com a crian\u00e7a a deixar\u00e1 desatualizada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia, que avan\u00e7a r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Esse pensamento leva, quase sempre, a uma realidade cruel. Estudo da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV) aponta que metade das m\u00e3es que trabalham s\u00e3o demitidas at\u00e9 dois anos depois que acaba a licen\u00e7a, devido \u00e0 mentalidade de que os cuidados com os filhos s\u00e3o praticamente uma exclusividade delas. Grasiela Maria de Ara\u00fajo, 36 anos, foi demitida logo depois de ter o terceiro filho, em 2013. \u201cTirei a licen\u00e7a e mais um m\u00eas de f\u00e9rias. Ao voltar, fui desligada\u201d, conta.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o esmoreceu. Fez bicos enquanto esperava emprego de carteira assinada, que s\u00f3 veio dois anos depois. Grasiela entrou para o mercado de trabalho aos 18 anos, como atendente em uma lanchonete. Hoje, tem um filho de 18 anos e outros dois, de 15 e seis, de uma uni\u00e3o est\u00e1vel que j\u00e1 dura 17 anos. \u201cA gente ouve o tempo todo que m\u00e3e n\u00e3o trabalha, faz corpo mole. \u00c9 dif\u00edcil. J\u00e1 perdi emprego porque de cara disseram que eu n\u00e3o estaria dispon\u00edvel para viajar\u201d, assinala.<\/p>\n<p>Pesquisa dos profissionais da Catho de 2018, com mais de 2,3 mil m\u00e3es, afirma que 30% das mulheres deixam o trabalho para cuidar dos filhos. Entre os homens, esse n\u00famero \u00e9 quatro vezes menor: 7%. Claudia Santos, 38, preferiu pedir as contas antes de ser demitida. Nascida em Bel\u00e9m, ela come\u00e7ou a trabalhar aos 14 anos, vendendo salgados nas ruas, e, aos 17, foi contratada por um restaurante. Engravidou em seguida e n\u00e3o aguentou o calor do fog\u00e3o. \u201cDeixei o emprego antes de ser demitida. Ouvia o chefe dizendo que mulher gr\u00e1vida \u00e9 problema porque falta ao servi\u00e7o e aumenta o custo por causa do sal\u00e1rio-fam\u00edlia\u201d, lembra. Ela s\u00f3 conseguiu voltar a trabalhar fora depois de dois anos.<br \/>\n<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<h3><strong>De volta \u00e0 ativa<\/strong><\/h3>\n<p>Dani Junco, fundadora e diretora executiva (CEO) da B2Mamy, aponta que, a cada 10 mulheres, quatro n\u00e3o conseguem retornar ao mercado ap\u00f3s a licen\u00e7a-maternidade, de acordo com a consultoria Robert Half. \u201cPercebo que \u00e9 uma quest\u00e3o cultural. Em minha experi\u00eancia, senti que as pessoas achavam estranho quando eu deixava meus filhos na escola o dia inteiro\u201d, relata Claudia Consalter, m\u00e3e de g\u00eameos e fundadora da Orthodontic, rede de cl\u00ednicas de ortodontia.<\/p>\n<p>A tributarista Rhuana Rodrigues, 38, s\u00f3cia do Chenut, Oliveira, Santiago Advogados, acredita que o peso maior da responsabilidade com os filhos sempre recai sobre a m\u00e3e. \u201cMas costumo dizer que meu marido me ajuda, ele compartilha o cuidado com as crian\u00e7as, que tamb\u00e9m cabe a ele\u201d, argumenta. Casada desde 2006, ela teve o primeiro filho, de quatro anos, aos 33 anos. O segundo \u00e9 recente: est\u00e1 com apenas tr\u00eas meses.<\/p>\n<div>\n<p>\u201cEspecialmente comigo, n\u00e3o houve discrimina\u00e7\u00e3o, porque sou dona do meu neg\u00f3cio e diretora de Recursos Humanos do escrit\u00f3rio. Mas ou\u00e7o hist\u00f3rias terr\u00edveis\u201d, conta.<\/p>\n<p>Durante o tempo da licen\u00e7a-maternidade, Rhuana aproveitou que o \u201cbeb\u00ea dormia o dia inteiro\u201d, para concluir a monografia de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em direito digital.<\/p>\n<\/div>\n<h3><strong>Efeitos positivos<\/strong><\/h3>\n<div>\n<p>Desconsiderar os efeitos positivos da maternidade no mercado de trabalho \u00e9 um erro n\u00e3o apenas do ponto de vista da vida das mulheres, mas das finan\u00e7as do pa\u00eds. \u00c9 o que aponta a empres\u00e1ria Dani Junco, fundadora e diretora executiva (CEO) da B2Mamy, empresa dedicada a selecionar m\u00e3es empreendedoras para neg\u00f3cios. Ela prop\u00f5e uma simula\u00e7\u00e3o, que chama de \u201cdistopia Handmaid\u2019s Tale\u201d: \u201cAcabamos de acordar com o mundo completamente est\u00e9ril, assim como voc\u00ea j\u00e1 deve ter desejado ao saber que a mo\u00e7a da sua equipe est\u00e1 gr\u00e1vida. E agora?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>Os resultados seriam desastrosos. Primeiro, diz, o faturamento de R$ 50 bilh\u00f5es que representa o segmento infantil, de acordo com a Consultoria Nielsen, deixaria de ser injetado na economia. \u201cN\u00e3o est\u00e3o somados aqui turismo, entretenimento e outras \u00e1reas correlatas que atendem a esses 20% da popula\u00e7\u00e3o\u201d. Em segundo lugar, com a popula\u00e7\u00e3o envelhecendo, n\u00e3o teria m\u00e3o de obra para manter alguns servi\u00e7os. \u201cSem falar das novas cabe\u00e7as que n\u00e3o nasceriam. Portanto, pesquisa, inova\u00e7\u00e3o e desenvolvimento seriam escassos\u201d, diz.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia das mulheres no mercado de trabalho \u00e9 evidente. Entre 2005 e 2015, o n\u00famero de fam\u00edlias compostas por m\u00e3es solo subiu de 10,5 milh\u00f5es para 11,6 milh\u00f5es, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). O n\u00famero de lares brasileiros chefiados por mulheres cresceu de 23% para 40% entre 1995 e 2015, de acordo com a pesquisa Retrato das Desigualdades de G\u00eanero e Ra\u00e7a, de 2017, do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea).<\/p>\n<h3><strong>A lei e a vida real\u00a0<\/strong><\/h3>\n<div>\n<p>Assegurada por lei desde 1943, a licen\u00e7a-maternidade atendeu mais de 53 mil brasileiras em 2018, pelos dados da Secretaria Especial de Previd\u00eancia e Trabalho do Minist\u00e9rio da Economia. \u201cAtualmente, o empregador \u00e9 obrigado a conceder 120 dias, mas \u00e9 poss\u00edvel estender at\u00e9 180 para os que aderirem ao programa Empresa Cidad\u00e3, que gera benef\u00edcios fiscais para os contratantes\u201d, conta o advogado Jo\u00e3o Badari, especialista em direito previdenci\u00e1rio do escrit\u00f3rio Aith, Badari e Luchin Advogados.<\/p>\n<p>Mesmo com o direito garantido no papel, a lei, \u00e0s vezes, \u00e9 ignorada. Raramente as m\u00e3es contam com a ajuda de que precisam depois da gravidez. Mesmo assim, muitas narram hist\u00f3rias de sucesso. Maire Laide Albernaz Neiva, 62, administra um restaurante com 20 funcion\u00e1rios, depois de criar tr\u00eas filhas (43, 41 e 38 anos). \u201cComecei cedo, aos 14 anos, em uma ag\u00eancia de autom\u00f3veis. Aos 15, fui transferida para a \u00e1rea de cobran\u00e7a. Cheguei a chefe do setor financeiro, aos 25\u201d, relata.<\/p>\n<p>As tr\u00eas filhas foram criadas, praticamente, dentro da concession\u00e1ria. Os patr\u00f5es montaram ber\u00e7o e a infraestrutura para as crian\u00e7as. \u201cMas nunca tirei licen\u00e7a-maternidade. Voltava a trabalhar 15 dias ap\u00f3s ter nen\u00e9m. Precisava do dinheiro e tinha a op\u00e7\u00e3o de ganhar dobrado\u201d, afirma. Depois que os filhos cresceram, Maire entrou para a Faculdade de Moda e conseguiu o diploma, aos 50 anos. Uma vit\u00f3ria para quem tem uma m\u00e3e de 85 anos \u201cque n\u00e3o sabe ler nem escrever\u201d. \u201cHoje, minhas filhas t\u00eam vidas pr\u00f3prias. Mas ainda cuido de minha m\u00e3e e de uma sobrinha especial, de 45 anos\u201d, destaca.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixar de ter ambi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias \u00e9 uma das dicas que Luzia Costa, CEO do Grupo Cetro, d\u00e1 para quem \u00e9 m\u00e3e e quer iniciar a vida de empreendedora. M\u00e3e de dois filhos, ela ressalta a import\u00e2ncia de enfrentar julgamentos e aceitar ajuda.\u201cSem d\u00favidas, muitas pessoas ir\u00e3o lhe criticar por dedicar um tempo do seu dia para trabalho e vida profissional, deixando filhos com av\u00f3s, bab\u00e1s, em escolinhas, entre outros. Mas precisamos realizar nossos sonhos, at\u00e9 mesmo para dar condi\u00e7\u00f5es melhores para nossos filhos\u201d, ensina.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Correio Braziliense)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maternidade permanece pol\u00eamica para empregadas e empregadores. Quando uma trabalhadora engravida, o foco das empresas continua sendo nas \u201cperdas\u201d que ter\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos. 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