{"id":37050,"date":"2019-05-13T14:03:45","date_gmt":"2019-05-13T17:03:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=37050"},"modified":"2019-05-13T14:03:45","modified_gmt":"2019-05-13T17:03:45","slug":"exame-antidoping-em-empresas-gera-debate-sobre-o-direito-a-intimidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/05\/13\/exame-antidoping-em-empresas-gera-debate-sobre-o-direito-a-intimidade\/","title":{"rendered":"Exame antidoping em empresas gera debate sobre o direito \u00e0 intimidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"content\">\n<div class=\"moz-reader-content line-height4 reader-show-element\">\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div>\n<p>O uso de exames que detectam subst\u00e2ncias psicoativas em empresas divide as opini\u00f5es de especialistas. Enquanto companhias que os aplicam dizem ter a sa\u00fade e a seguran\u00e7a dos funcion\u00e1rios em mente, h\u00e1 quem veja uma viola\u00e7\u00e3o da intimidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma lei ou norma espec\u00edfica que regulamente o uso desses testes por meio da an\u00e1lise de amostras biol\u00f3gicas, como urina, saliva e cabelo. A exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o os motoristas profissionais e os aeronautas (pilotos, comiss\u00e1rios e mec\u00e2nicos de voo), obrigados a passar pelo exame.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Fab\u00edola Marques, professora de direito do trabalho da PUC-SP, a empresa s\u00f3 pode aplicar o teste se tiver o consentimento do profissional e comprovar que, por conta de sua fun\u00e7\u00e3o, o uso de \u00e1lcool ou drogas amea\u00e7a a vida dele ou de outras pessoas.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, muitas empresas adotam o exame toxicol\u00f3gico j\u00e1 na sele\u00e7\u00e3o de candidatos a vagas e tamb\u00e9m submetem funcion\u00e1rios periodicamente ao teste.<\/p>\n<p>Especializado em exames toxicol\u00f3gicos, o laborat\u00f3rio Maxilabor, em S\u00e3o Paulo, diz ter uma clientela de 250 companhias no pa\u00eds. A maioria delas s\u00e3o empresas nas quais a execu\u00e7\u00e3o de tarefas sob o efeito de \u00e1lcool e drogas oferece risco de acidentes graves -caso de ind\u00fastrias, empresas a\u00e9reas, transportadoras e mineradoras.<\/p>\n<p>Segundo o diretor-m\u00e9dico do laborat\u00f3rio, o toxicologista Anthony Wong, algumas dessas firmas aplicam os testes apenas em profissionais que executam fun\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas. Outras submetem todos os funcion\u00e1rios com o intuito de n\u00e3o haver distin\u00e7\u00e3o entre empregados.<\/p>\n<p>Para Fab\u00edola Marques, a t\u00e1tica faz sentido do ponto de vista legal, pelo princ\u00edpio da igualdade, ou seja, de n\u00e3o conferir tratamento diferenciado a grupos de funcion\u00e1rios. Mas o profissional n\u00e3o pode ser coagido a participar, diz.<\/p>\n<p>Wong afirma que, nas empresas em que atua, a escolha de participar ou n\u00e3o cabe sempre ao funcion\u00e1rio. Quem se recusa a passar pelo exame, contudo, fica sob o que chama de &#8220;uma vigil\u00e2ncia discreta&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O funcion\u00e1rio n\u00e3o pode ser constrangido a assinar o documento de ades\u00e3o. Ele s\u00f3 assina se quiser, mas nosso \u00edndice de aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 de 99,3%.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com o m\u00e9dico, todo o processo, desde o sorteio dos funcion\u00e1rios aos resultados dos testes, ocorre em sigilo.<\/p>\n<p>Se uma subst\u00e2ncia \u00e9 encontrada no exame, o profissional \u00e9 submetido a uma avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Se necess\u00e1rio, \u00e9 encaminhado a tratamento.<\/p>\n<p>O programa pode ser usado at\u00e9 por companhias que n\u00e3o desempenham atividades consideradas de risco, segundo o toxicologista. O pr\u00f3prio Maxilabor aplica os exames em candidatos a vagas de emprego e em seus cem funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 risco envolvido, o que prevalece, na opini\u00e3o da advogada Marques, \u00e9 o direito \u00e0 intimidade, previsto na Constitui\u00e7\u00e3o. Ela cita ainda a lei 9.029, que pro\u00edbe a ado\u00e7\u00e3o de qualquer pr\u00e1tica discriminat\u00f3ria para o acesso ao emprego ou a sua manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2017, a Centauro, rede de lojas de artigos esportivos, foi condenada por submeter seus funcion\u00e1rios a exames do tipo. Segundo depoimentos, os funcion\u00e1rios sorteados para o teste eram alvo de brincadeiras, como ouvir que haviam sido escolhidos por terem &#8220;cara de noia&#8221;.<\/p>\n<p>Em nota, a Centauro afirmou que a pr\u00e1tica foi extinta.<\/p>\n<p>&#8220;Se o que o funcion\u00e1rio fizer na vida privada n\u00e3o tiver repercuss\u00e3o na sua condi\u00e7\u00e3o de trabalho, n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo que o empregador fa\u00e7a nenhum tipo de invas\u00e3o&#8221;, afirma Valdirene de Assis, procuradora do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho.<\/p>\n<p>J\u00e1 o advogado Rafael Spadotto, professor da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o de pessoas da Faap, argumenta que a exig\u00eancia do teste em si n\u00e3o pode ser considerada uma viola\u00e7\u00e3o da intimidade. O problema s\u00f3 existe, segundo ele, quando h\u00e1 a exposi\u00e7\u00e3o de quem foi sorteado para fazer os testes ou a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados.<br \/>\nO advogado tamb\u00e9m ressalta que o profissional n\u00e3o pode ser demitido caso o resultado d\u00ea positivo. &#8220;A depend\u00eancia qu\u00edmica n\u00e3o \u00e9 mais considerada causa para dispensa, mas condi\u00e7\u00e3o para tratamento.&#8221;<\/p>\n<p>Nos 14 meses em que trabalhou como gar\u00e7onete a bordo de um navio, a carioca Thalita Lopes, 23, foi submetida duas vezes ao teste de urina. Ela diz que em uma das ocasi\u00f5es foi escolhida como retalia\u00e7\u00e3o por sua chefe. &#8220;Ela n\u00e3o gostava de mim e quis ver se achava alguma coisa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Thalita conta que foi convocada para fazer o exame logo ap\u00f3s ter desembarcado para visitar a fam\u00edlia, no Rio. O resultado deu negativo. &#8220;Fui chamada no meio do trabalho, entre os meus colegas.&#8221;<\/p>\n<p>A Anamt (Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Medicina do Trabalho), em diretriz t\u00e9cnica, n\u00e3o recomenda a aplica\u00e7\u00e3o do teste toxicol\u00f3gico como medida isolada para preven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde acidentes de trabalho.<\/p>\n<p>A presidente da entidade, Marcia Bandini, diz que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias em artigos cient\u00edficos de que a pr\u00e1tica reduza o n\u00famero de acidentes.<\/p>\n<p>Segundo a m\u00e9dica, se a empresa quiser aplicar o rastreamento, os exames devem fazer parte de um programa robusto de preven\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o do uso de \u00e1lcool e drogas.<\/p>\n<p>J\u00e1 S\u00e9rgio Duailibi, m\u00e9dico especialista em depend\u00eancia qu\u00edmica, acredita que o uso de testes, tamb\u00e9m dentro de um programa, \u00e9 uma das medidas ambientais mais efetivas para evitar acidentes, por levar \u00e0 mudan\u00e7a do comportamento. &#8220;Se o funcion\u00e1rio tem medo de ser pego, para de usar drogas, pelo menos perto da data em que vai trabalhar.&#8221;<\/p>\n<p><em>(Fonte: Folha de S. Paulo)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O uso de exames que detectam subst\u00e2ncias psicoativas em empresas divide as opini\u00f5es de especialistas. Enquanto companhias que os aplicam dizem ter a sa\u00fade e a seguran\u00e7a dos funcion\u00e1rios em mente, h\u00e1 quem veja uma viola\u00e7\u00e3o da intimidade. 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