{"id":36475,"date":"2019-02-26T14:25:56","date_gmt":"2019-02-26T17:25:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=36475"},"modified":"2019-02-26T14:35:17","modified_gmt":"2019-02-26T17:35:17","slug":"o-luto-e-a-saude-mental-da-populacao-de-brumadinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/02\/26\/o-luto-e-a-saude-mental-da-populacao-de-brumadinho\/","title":{"rendered":"O luto e a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o e trabalhadores de Brumadinho"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu me sinto confort\u00e1vel de ter tirado ele da lama e ter dado um enterro digno.\u201d Esse \u00e9 o desabafo de Diego Muniz, 27, que conseguiu, ap\u00f3s uma semana do rompimento da barragem Mina do Feij\u00e3o, de responsabilidade da Vale, em Brumadinho, realizar o sepultamento do tio Claudio Pereira Silva. O funcion\u00e1rio terceirizado da mineradora tinha 45 anos, trabalhava h\u00e1 cinco com a limpeza de vag\u00f5es que transportavam min\u00e9rio e est\u00e1 entre os 157 mortos contabilizados, at\u00e9 o momento, pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Outras 182 pessoas continuam desaparecidas. Al\u00e9m da perda do tio, Diego acompanha a busca pelo sogro desaparecido. Sua companheira, Aline Muniz, 26, ainda espera encontrar o corpo do pai, Levi Gon\u00e7alves da Silva, 59, que trabalhava junto com Claudio. Pelas caracter\u00edsticas da trag\u00e9dia, de acordo com os Bombeiros, a chance de encontrar sobreviventes \u00e9 m\u00ednima.<\/p>\n<p>Diante disso, o desafio para familiares e amigos \u00e9 o de lidar com a elabora\u00e7\u00e3o do luto de centenas de vidas que foram interrompidas. Uma das principais dificuldades do luto em trag\u00e9dias como essa \u00e9 o fato de envolver mortes violentas e inesperadas. \u201cQuando uma pessoa est\u00e1 doente, ela pode morrer a qualquer momento, mas as v\u00edtimas do rompimento da barragem sa\u00edram para trabalhar, passear, para se divertir. Elas iam voltar e isso [a trag\u00e9dia] foi violento, foi repentino\u201d, detalha a professora e pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte do Instituto de Psicologia e do Centro de Estudos e Pesquisas em Desastres da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) Elaine Alves.<\/p>\n<p>A interrup\u00e7\u00e3o violenta e inesperada dessas vidas dificulta o luto. Enfrentar tantas perdas exige tempo e cada pessoa tem o seu per\u00edodo. Al\u00e9m disso, conviver com o fato de n\u00e3o ter acesso ao corpo \u00e9 outro obst\u00e1culo no processo. \u201cEu acho que isso \u00e9 um sonho e que ele ainda pode voltar. Quando n\u00e3o h\u00e1 corpo, n\u00e3o h\u00e1 nada e o que fica \u00e9 um sentimento ruim de n\u00e3o ter achado, de n\u00e3o saber se vai achar. Se os bombeiros falarem que v\u00e3o terminar as buscas e que n\u00e3o v\u00e3o mais achar nenhum corpo, acho que a minha fam\u00edlia n\u00e3o vai estar preparada\u201d, conta Aline Muniz.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora Elaine Alves, o luto \u00e9 totalmente diferente para quem conseguiu realizar o sepultamento em compara\u00e7\u00e3o com aqueles que esperam o corpo ser encontrado. \u201cAs pessoas que puderam enterrar fecharam um ciclo e esse luto pode come\u00e7ar, mas h\u00e1 outros familiares que querem encontrar os corpos dos desaparecidos e dar um final digno para eles, j\u00e1 que a morte n\u00e3o foi digna&#8221;, pontua. &#8220;Se a pessoa n\u00e3o encontra o corpo, fica um ciclo que n\u00e3o se fecha e essa sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o acabou fica para sempre. \u00c9 muito dif\u00edcil elaborar esse luto, ele fica em aberto.&#8221;<\/p>\n<p>Diego Muniz conseguiu fechar esse ciclo quando enterrou o tio, considerado por ele como um segundo pai. \u201cGra\u00e7as a Deus, encontramos meu tio inteiro e, de certa forma, \u00e9 um al\u00edvio no cora\u00e7\u00e3o, apesar da falta continuar a mesma. Ele era muito novo e brincalh\u00e3o. Todo mundo que a gente conversa s\u00f3 lembra coisa boa sobre ele.\u201d<\/p>\n<h3>A escuta e a \u201cautoriza\u00e7\u00e3o do sofrimento\u201d<\/h3>\n<p>Elaine Alves destaca que a trag\u00e9dia de Brumadinho apresenta um contexto em que o luto \u00e9 caracterizado pela escuta entre aqueles que tiveram perdas. Por esse motivo, ao conversarem sobre as mortes, ocorre uma uni\u00e3o que possibilita o acolhimento. \u201cGeralmente, quando se est\u00e1 sozinho no luto, muitas pessoas n\u00e3o t\u00eam paci\u00eancia de ouvir. Como v\u00e1rias pessoas perderam, elas est\u00e3o dispostas a escutarem umas \u00e0s outras. S\u00e3o v\u00e1rias pessoas da mesma comunidade que perderam as mesmas coisas, ent\u00e3o elas se acolhem\u201d, explica.<\/p>\n<p>A comunidade do C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, diretamente atingida pelo rompimento da barragem da mineradora Vale, tem se unido para se fortalecer diante dos futuros desafios. Como destaca Aline Muniz, \u201ctem muita gente traumatizada com o acontecimento, ent\u00e3o a comunidade est\u00e1 se juntando mais e tentando buscar for\u00e7as um com o outro para tentar resolver os problemas que a gente vai enfrentar daqui pra frente\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora Elaine, \u00e9 importante que as fam\u00edlias tenham o sofrimento autorizado, ou seja, a dor da perda precisa ser dita e tamb\u00e9m ouvida por quem acolhe. \u201cN\u00e3o \u00e9 a fala \u2018tudo vai passar\u2019 ou \u2018voc\u00ea tem que ser forte\u2019 que vai ajudar neste momento, pois n\u00e3o tem como ser forte numa situa\u00e7\u00e3o dessas. \u00c9 preciso respeitar que isso \u00e9 um momento muito dif\u00edcil, o que aconteceu com eles \u00e9 um absurdo, sim, e ningu\u00e9m sabe como eles sair\u00e3o disso\u201d, conclui.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Vice Brasil)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu me sinto confort\u00e1vel de ter tirado ele da lama e ter dado um enterro digno.\u201d Esse \u00e9 o desabafo de Diego Muniz, 27, que conseguiu, ap\u00f3s uma semana do rompimento da barragem Mina do Feij\u00e3o, de responsabilidade da Vale, em Brumadinho, realizar o sepultamento do tio Claudio Pereira Silva. O funcion\u00e1rio terceirizado da mineradora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35825,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36475"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36475\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35825"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}