{"id":35780,"date":"2019-01-18T08:00:09","date_gmt":"2019-01-18T10:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=35780"},"modified":"2019-01-18T11:03:36","modified_gmt":"2019-01-18T13:03:36","slug":"a-vivencia-de-profissionais-soropositivos-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2019\/01\/18\/a-vivencia-de-profissionais-soropositivos-no-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"A viv\u00eancia de profissionais soropositivos no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p>O preconceito, em qualquer \u00e1rea, \u00e9 cruel. E quando cria um estigma, super\u00e1-lo \u00e9 um desafio di\u00e1rio. Nos \u00faltimos anos, as pessoas que vivem com o HIV, o v\u00edrus da imunodefici\u00eancia humana, infec\u00e7\u00e3o sexualmente transmiss\u00edvel e causadora da Aids, ganharam qualidade de vida (ainda que a doen\u00e7a n\u00e3o tenha cura) e, consequentemente, t\u00eam participado ativamente do mercado de trabalho. Depois de trabalhar no servi\u00e7o de preven\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia ao HIV\/Aids do Sistema \u00danico de Sa\u00fade da Prefeitura Municipal de Betim, entre 2007 e 2009, Ronan Rom\u00e3o, de 30 anos, foi tomado por questionamentos diante do contato com esse p\u00fablico na sua rotina. Era seu primeiro emprego, funcion\u00e1rio p\u00fablico concursado, e com a veia de pesquisador, mergulhou nesse universo para descobrir o impacto que essas pessoas vivenciavam.<\/p>\n<p>Diante de dados desafiadores, o administrador Ronan Rom\u00e3o, mestre e doutorando, desenvolveu sua disserta\u00e7\u00e3o por meio do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Administra\u00e7\u00e3o da PUC-Minas (PPGA-PUC Minas), entrevistando 13 trabalhadores que convivem com o v\u00edrus da Aids e atuam em organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. \u201cO estigma \u00e9 real, j\u00e1 que \u00e9 vivenciado por essas pessoas e se encontra amplamente denunciado na literatura. A hist\u00f3ria do HIV\/Aids \u00e9 permeada de estigmas como nenhuma outra doen\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o conhecida. Por meio dos diversos relatos dos depoentes foi poss\u00edvel concluir que o trabalhador que vive com HIV\/Aids lida rotineiramente com uma s\u00e9rie de adjetivos que o desqualificam no local de trabalho (pessoa doente, inapta, irrespons\u00e1vel, desleixada). Contudo, a imagem mais temida por ele parece ser a de uma pessoa doente e inapta para o trabalho.\u201d<\/p>\n<p>De maneira geral, Ronan explica que os participantes da pesquisa n\u00e3o passaram pelo processo agudo da doen\u00e7a, em que a Aids se manifesta de maneira avassaladora e anuncia um quadro de morte iminente. \u201cDadas a disponibilidade e a efici\u00eancia do diagn\u00f3stico e da medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, em quase todos os casos foi poss\u00edvel iniciar o tratamento da doen\u00e7a em seu est\u00e1gio inicial. A tal imagem (a do doente terminal de Aids), contudo, aparece como um fantasma: ao mesmo tempo em que eles convivem com a doen\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o controlada, existe o medo e a inseguran\u00e7a de se aparentar fisicamente doente de Aids.\u201d<\/p>\n<p>Ronan Rom\u00e3o enfatiza que, pelo medo do estigma, o trabalhador soropositivo, de maneira geral, procura ser discreto e manter a doen\u00e7a em segredo. \u201cParece haver uma avalia\u00e7\u00e3o, por parte dele, que concluiu no sentido de redobrar a aten\u00e7\u00e3o e o cuidado com as informa\u00e7\u00f5es que remetam ao HIV\/Aids, pois, se mesmo entre seus familiares e amigos o estigma da doen\u00e7a se faz presente e o prejudica, ele considera que poderia ser ainda mais prejudicado no local de trabalho, visto que o afeto e a cumplicidade n\u00e3o s\u00e3o objetivos que se esperam a priori nas organiza\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>As barreiras s\u00e3o muitas. Ronan Rom\u00e3o destaca que a possibilidade de trabalhar, que \u00e9 comemorada por eles como uma vit\u00f3ria sobre a doen\u00e7a, corporiza-se em sofrimento e adoecimento no local de trabalho quando o estigma se apresenta. \u201cO pavor de ter sua sorologia descoberta e ser, por conseguinte, discriminado configura um campo de sofrimento e adoecimento no local de trabalho que se torna observ\u00e1vel. Por exemplo, por um estado de alerta constante, por um alto n\u00edvel de estresse, pela autoestima que se fragiliza, pela possibilidade da depress\u00e3o que surge implac\u00e1vel e pelo isolamento do grupo, que constitui um grande pesadelo para esse trabalhador.\u201d Ele completa dizendo que \u201cnossa aten\u00e7\u00e3o foi especialmente agu\u00e7ada para esses sinais quando, durante as entrevistas, al\u00e9m dos relatos orais, observou-se tamb\u00e9m que, n\u00e3o raro, a voz do depoente se alterava, os olhos se agitavam, as m\u00e3os tremiam e, especialmente quando na entrevista com as participantes (as duas mulheres), foi necess\u00e1rio interromper a entrevista, dando a elas o espa\u00e7o e o tempo necess\u00e1rios para que se recompusessem e retomassem a fala\u201d.<\/p>\n<h3>Temores<\/h3>\n<p>Ronan Rom\u00e3o afirma que, praticamente, todos os entrevistados n\u00e3o consideram a possibilidade de se revelar no local de trabalho. \u201cE para que n\u00e3o levantem suspeitas sobre sua condi\u00e7\u00e3o, comportam-se como algu\u00e9m que n\u00e3o vive com HIV\/Aids. Eventualmente, esse assunto \u00e9 tema de algum di\u00e1logo promovido pela organiza\u00e7\u00e3o ou alguma roda de conversa informal entre colegas, e reconhecem nisso uma oportunidade de contribuir com o que sabem, mas mesmo querendo contribuir exaustivamente, evitam falar al\u00e9m do que seria razo\u00e1vel para algu\u00e9m que n\u00e3o estivesse inserido no contexto. Assim, ficou percept\u00edvel que se colocar como algu\u00e9m distante desse cen\u00e1rio, ou por vezes alienado, tamb\u00e9m faz parte dos esfor\u00e7os que eles empregam.\u201d<\/p>\n<p>De tudo que constatou na pesquisa, Ronan Rom\u00e3o destaca que, \u201cquando se esfor\u00e7am para minimizar, esconder ou negar sinais que remetam ao HIV\/Aids, esses trabalhadores n\u00e3o encontram um lugar de conforto. Pelo contr\u00e1rio, antecipam preju\u00edzos do estigma por meio da ansiedade e do medo. Nesse momento, a possibilidade de trabalhar, que \u00e9 comemorada por eles como uma vit\u00f3ria sobre a doen\u00e7a, corporiza-se em sofrimento e adoecimento no local de trabalho. Nessas situa\u00e7\u00f5es se veem obrigados a escutar (e sem poder se defender) os adjetivos depreciativos associados aos doentes de Aids. E ali, para que n\u00e3o demonstrem sua ang\u00fastia, internalizam-na. Na impossibilidade de enfrentar o estigma, aceitam, infelizes, caminhar ao seu lado.\u201d<\/p>\n<p>Outra percep\u00e7\u00e3o de Ronan Rom\u00e3o entre os 13 trabalhadores entrevistados \u00e9 que, pelos relatos, \u201co contato com o diferente (algu\u00e9m que n\u00e3o porta o v\u00edrus) suscita uma s\u00e9rie de temores, que se intensificam no trabalho. A imagem mais temida parece ser a de uma pessoa doente e inapta.\u201d<\/p>\n<p>Parece que, para estar no mercado de trabalho, obrigatoriamente, esses profissionais t\u00eam de esconder a doen\u00e7a. \u201cComo estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, habitualmente, escondem. A pessoa soropositiva n\u00e3o \u00e9 obrigada a revelar sua sorologia e sua discrimina\u00e7\u00e3o no local de trabalho \u00e9 uma infra\u00e7\u00e3o prevista em lei. Deve restar claro que o sigilo quanto \u00e0 sua identidade \u00e9, sobretudo, um direito. Em seu governo, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei 12.984\/2014, que define como crime a discrimina\u00e7\u00e3o de pessoas soropositivas ou doentes de Aids. Nessa lei, o local de trabalho aparece em destaque: negar emprego ou trabalho, exonerar ou demitir, segregar no ambiente de trabalho e divulgar a condi\u00e7\u00e3o de pessoa portadora do v\u00edrus ou soropositiva pode implicar reclus\u00e3o de um a quatro anos, al\u00e9m de multa. Mesmo sendo essa lei uma grande conquista para as pessoas que vivem com o v\u00edrus, os desafios persistem nos mais diversos ambientes.\u201d<\/p>\n<p>Para Ronan Rom\u00e3o, o estigma s\u00f3 pode ser combatido com o entendimento do processo que o gera e o mant\u00e9m vivo na din\u00e2mica social. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio, em primeiro lugar, compreender para desmistificar. Todos os estigmas se alimentam tamb\u00e9m da ignor\u00e2ncia.\u201d Quanto ao comportamento dos colegas de trabalho, o pesquisador lembra que eles n\u00e3o deveriam se preocupar. \u201cO HIV\/Aids \u00e9 uma doen\u00e7a cr\u00f4nica com tratamento altamente eficiente e n\u00e3o se transmite pelo contato que se estabelece entre as pessoas no local de trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todas as batalhas que o trabalhador soropositivo tem de enfrentar, muito se questiona tamb\u00e9m sobre a forma\u00e7\u00e3o e a capacita\u00e7\u00e3o. Ronan Rom\u00e3o conta que foi feita uma abordagem qualitativa, entrevistas em profundidade com um grupo de estudo composto por 13 trabalhadores que vivem com HIV\/Aids entre um e 12 anos, sendo 11 homens e duas mulheres, com idade entre 20 e 55 anos, com escolaridade do ensino fundamental ao ensino superior, que atuam em organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas. Impere ressaltar que o HIV\/Aids n\u00e3o escolhe um grupo. As mais diversas pessoas em termos de ra\u00e7a, credo, classe social, orienta\u00e7\u00e3o sexual, forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o distintas est\u00e3o suscet\u00edveis ao v\u00edrus.\u201d<\/p>\n<p><em>(Fonte: Uai)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O preconceito, em qualquer \u00e1rea, \u00e9 cruel. E quando cria um estigma, super\u00e1-lo \u00e9 um desafio di\u00e1rio. 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