{"id":35290,"date":"2018-11-01T08:00:01","date_gmt":"2018-11-01T11:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=35290"},"modified":"2018-10-31T10:56:39","modified_gmt":"2018-10-31T13:56:39","slug":"treinar-comunidade-a-ouvir-pode-reduzir-ansiedade-e-depressao-diz-medico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2018\/11\/01\/treinar-comunidade-a-ouvir-pode-reduzir-ansiedade-e-depressao-diz-medico\/","title":{"rendered":"Treinar comunidade a ouvir pode reduzir ansiedade e depress\u00e3o, diz m\u00e9dico"},"content":{"rendered":"<p>O treinamento de profissionais da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, como m\u00e9dicos de fam\u00edlia e enfermeiros, combinado com iniciativas que envolvam a comunidade pode ser o caminho para aumentar a oferta de tratamento de transtornos mentais como a depress\u00e3o e a ansiedade.<\/p>\n<p>\u00c9 o que afirma o psiquiatra Shekhar Saxena, 62, professor do departamento de sa\u00fade global de Harvard e ex-diretor de sa\u00fade mental da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade), que participou da confer\u00eancia internacional de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em Astana (Cazaquist\u00e3o).<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s sabemos que o n\u00famero de m\u00e9dicos especialistas [psiquiatras] em pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda \u00e9 extremamente baixo. N\u00e3o h\u00e1 outra alternativa sen\u00e3o treinar profissionais da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, com a supervis\u00e3o de especialistas\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Saxena \u00e9 um dos autores de um recente relat\u00f3rio da revista The Lancet que faz severas cr\u00edticas \u00e0 qualidade dos tratamentos de problemas de sa\u00fade mental e o hist\u00f3rico subfinanciamento por parte dos governos.<\/p>\n<p>O psiquiatra considera efetivos tratamentos psicol\u00f3gicos em grupos ou providos por meio de volunt\u00e1rios treinados na comunidade.<\/p>\n<p>Uma iniciativa que vem ganhando apoio internacional, inclusive do duque e da duquesa de Cambridge, \u00e9 o \u201cfriendship bench\u201d (banco da amizade, numa tradu\u00e7\u00e3o livre), desenvolvido pelo professor Dixon Chibanda, da Universidade do Zimb\u00e1bue, pa\u00eds onde h\u00e1 apenas dez psiquiatras para uma popula\u00e7\u00e3o de 13 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Chibanda treinou av\u00f3s para ouvir e orientar pessoas com depress\u00e3o e ansiedade. Um estudo publicado no Jama (Jornal da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Americana) mostrou que aquelas que sentaram no banco e contaram seus problemas para as av\u00f3s tiveram maior redu\u00e7\u00e3o de sintomas da depress\u00e3o e da ansiedade do que aqueles que n\u00e3o tiveram essa escuta.<\/p>\n<p>Os bancos foram inicialmente testados no Zimb\u00e1bue e atualmente est\u00e3o sendo usados no Malaui, em Zanzibar e at\u00e9 em Nova York, em bairros como Bronx e Harlem.<\/p>\n<p class=\"newstext-star\">\n<p><strong>O tratamento de doen\u00e7as mentais na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e9 uma possibilidade real ou uma <\/strong><strong>ilus\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Para centenas de milh\u00f5es de pessoas que s\u00e3o afetadas pelos transtornos mentais, receber o tratamento na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria ainda \u00e9 uma tremenda ilus\u00e3o. Cerca de 90% das pessoas nos pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda n\u00e3o t\u00eam acesso a tratamentos efetivos m\u00ednimos. Por isso, encontros como esse em Astana s\u00e3o importantes para renovar os esfor\u00e7os para que governos incluam a sa\u00fade mental na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Recentemente, a revista The Lancet lan\u00e7ou um relat\u00f3rio em que trata desse assunto. O que ele traz de novo? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>O documento demonstra, por meio de estudos, que mesmo em pa\u00edses pobres \u00e9 poss\u00edvel oferecer um tratamento b\u00e1sico na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>E qual o caminho para conseguir isso? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que o n\u00famero de m\u00e9dicos especialistas [psiquiatras] em pa\u00edses de m\u00e9dia e baixa renda \u00e9 extremamente baixo. Temos pa\u00edses na \u00c1frica com 19 milh\u00f5es de habitantes e apenas um psiquiatra. Mesmo na Am\u00e9rica Latina o n\u00famero de psic\u00f3logos e psiquiatras \u00e9 grande, mas n\u00e3o o suficiente atender as necessidades de sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o, especialmente dos mais pobres. N\u00e3o h\u00e1 outra alternativa sen\u00e3o treinar profissionais da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, com a supervis\u00e3o de especialistas.<\/p>\n<p><strong>Mas como funcionaria? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>A aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria varia muito de pa\u00eds para pa\u00eds. Em alguns, os servi\u00e7os s\u00e3o gerenciados por m\u00e9dicos e enfermeiros, em outros por mais profissionais da sa\u00fade. Todos podem ajudar, mas de diferentes maneiras. M\u00e9dicos e enfermeiras podem ser treinados para identificar e tratar pessoas com as desordens mentais mais comuns como depress\u00e3o, ansiedade e problemas com \u00e1lcool e drogas. Eles podem ajudar de 60% a 70% das pessoas. Algumas v\u00e3o precisar ser encaminhadas a um especialista, mas ser\u00e1 a minoria. A maioria pode ser cuidada em uma aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria bem treinada.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 grande controv\u00e9rsia entre a hospitaliza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de doentes mentais. O que o sr. pensa sobre isso? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que um bom cuidado na comunidade [fora do hospital] custa caro e uma hospitaliza\u00e7\u00e3o ruim pode ser mais barata. Os governantes precisam criar modelos comunit\u00e1rios, como fez o Brasil com um grande n\u00famero de cl\u00ednicas da fam\u00edlia [na verdade, os Caps, centros de aten\u00e7\u00e3o psicossociais], onde pessoas podem ser tratadas. Pode n\u00e3o existir em n\u00famero suficiente, mas isso diminui muito a necessidade de hospitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que algumas pessoas v\u00e3o continuar precisando de hospitaliza\u00e7\u00e3o, mas ser\u00e3o a minoria. Cuidar da pessoa na comunidade \u00e9 melhor para o paciente, para a fam\u00edlia e para os resultados do tratamento a longo prazo. Quando o paciente fica hospitalizado por mais de um ano, h\u00e1 grandes chances de ele nunca mais voltar ao conv\u00edvio social.<\/p>\n<p><strong>A psican\u00e1lise pode levar muito tempo, custa caro. H\u00e1 outras formas r\u00e1pidas e efetivas para tratar problemas mentais? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>Totalmente. H\u00e1 terapias curtas para depress\u00e3o e ansiedade que podem ser aplicadas por pessoas menos treinadas do que psiquiatras e psic\u00f3logos graduados. Se voc\u00ea tem acesso a esses profissionais, \u00f3timo. Se n\u00e3o tem, \u00e9 preciso treinar as pessoas que voc\u00ea tem por perto. Pessoas da comunidade podem ser treinadas em um per\u00edodo r\u00e1pido. Em at\u00e9 oito sess\u00f5es podem ser capazes de oferecer tratamento [terap\u00eautico]. Isso \u00e9 efetivo. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade tem protocolos que mostram que interven\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas podem ser t\u00e3o efetivas para depress\u00e3o quanto os medicamentos. Voc\u00ea s\u00f3 precisa treinar essas pessoas para oferecer esses tratamentos de forma efetiva.<\/p>\n<p><strong>O que sr. pensa sobre iniciativas como o friendship bench? <\/strong><\/p>\n<p>Friendship bench \u00e9 um m\u00e9todo inovador de cuidado por meio do uso de volunt\u00e1rios treinados, desenvolvido no Zimb\u00e1bue. Tem se mostrado efetivo.<\/p>\n<p><strong>Doen\u00e7as como a depress\u00e3o podem ser tratadas fora de um servi\u00e7o de sa\u00fade? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muito o que pode ser feito pelas doen\u00e7as mentais fora das cl\u00ednicas. Do ponto de vista populacional, pol\u00edticas sociais que aliviem a pobreza, diminuam a viol\u00eancia, eduquem as crian\u00e7as, cuidem dos conflitos, dos desastres, podem ser muito efetivas para prevenir doen\u00e7as mentais. Do ponto de vista individual, fazer bastante atividade f\u00edsica, comer de forma saud\u00e1vel para n\u00e3o se tornar obeso e n\u00e3o tomar rem\u00e9dios quando n\u00e3o precisam deles s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que diminuem a preval\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es que levam \u00e0 depress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O sr. pensa que os m\u00e9dicos sabem disso ou est\u00e3o convencidos disso? Muitos m\u00e9dicos n\u00e3o sabem e muitos outros sabem disso, mas continuam fazendo a coisa errada.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 problemas muito dif\u00edceis de serem manejados, por exemplo o crack no Brasil. Como lidar com isso? \u2002O problema da depend\u00eancia \u00e9 severo em muitos pa\u00edses. As solu\u00e7\u00f5es passam pelo controle para que a droga n\u00e3o esteja dispon\u00edvel \u00e0s pessoas, mas muito do esfor\u00e7o ser\u00e1 do lado da sa\u00fade p\u00fablica. Como eu consigo diminuir a necessidade dessas drogas pelos jovens por meio da preven\u00e7\u00e3o e como eu consigo ajud\u00e1-los a sair disso j\u00e1 que eles est\u00e3o de fato dependentes da droga? H\u00e1 muitos m\u00e9todos psicossociais. Especialmente para a depend\u00eancia \u00e0 coca\u00edna, a maior parte dos tratamentos \u00e9 psicossocial, que ajudam pessoa a sair das drogas e a ter uma vida livre. Envolve reabilita\u00e7\u00e3o, recupera\u00e7\u00e3o. Obviamente, os tratamentos s\u00e3o de longo prazo. N\u00e3o espere resultado em uma semana.<\/p>\n<p><strong>Em Harvard h\u00e1 experi\u00eancias com terapias em grupo para dependentes de droga. Isso funciona? \u2002<\/strong><\/p>\n<p>Consultas e tratamentos em grupo podem ser muito efetivos. O consumo de drogas em geral \u00e9 um fen\u00f4meno de grupo. Ent\u00e3o a recupera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser em grupo.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Folha de S. Paulo)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O treinamento de profissionais da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, como m\u00e9dicos de fam\u00edlia e enfermeiros, combinado com iniciativas que envolvam a comunidade pode ser o caminho para aumentar a oferta de tratamento de transtornos mentais como a depress\u00e3o e a ansiedade. \u00c9 o que afirma o psiquiatra Shekhar Saxena, 62, professor do departamento de sa\u00fade global de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":33934,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35290"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35290\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}