{"id":34812,"date":"2018-08-28T15:11:17","date_gmt":"2018-08-28T18:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=34812"},"modified":"2018-08-28T15:11:17","modified_gmt":"2018-08-28T18:11:17","slug":"as-silenciosas-mortes-de-brasileiros-soterrados-em-armazens-de-graos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2018\/08\/28\/as-silenciosas-mortes-de-brasileiros-soterrados-em-armazens-de-graos\/","title":{"rendered":"As silenciosas mortes de brasileiros soterrados em armaz\u00e9ns de gr\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p>Os ajudantes Edgar Jardel Fragoso Fernandes, de 30 anos, e Jo\u00e3o de Oliveira Rosa, de 38, iniciavam o expediente na Cooperativa C. Vale, em S\u00e3o Luiz Gonzaga (RS), quando foram acionados para desentupir um canal de um armaz\u00e9m carregado de soja.<\/p>\n<p>Era abril de 2017, quando a colheita da oleaginosa confirmava as previs\u00f5es de que o Brasil atingiria a maior safra de sua hist\u00f3ria. Enquanto tentavam desobstruir o duto caminhando sobre os gr\u00e3os, os dois afundaram nas part\u00edculas. Morreram asfixiados em poucos segundos, encobertos por v\u00e1rias toneladas de soja.<\/p>\n<p>Acidentes como esse em armaz\u00e9ns agr\u00edcolas t\u00eam se tornado frequentes conforme o agroneg\u00f3cio brasileiro bate sucessivos recordes \u2013 expondo um efeito colateral pouco conhecido da moderniza\u00e7\u00e3o do campo.<\/p>\n<p>Um levantamento in\u00e9dito feito pela BBC News Brasil revela que, desde 2009, ao menos 106 pessoas morreram em silos de gr\u00e3os no pa\u00eds, a grande maioria por soterramento.<\/p>\n<p>Cada vez mais comuns nas paisagens rurais do pa\u00eds, silos s\u00e3o grandes estruturas met\u00e1licas usadas para armazenar gr\u00e3os, evitando que estraguem e permitindo que vendedores ganhem tempo para negoci\u00e1-los.<\/p>\n<p>Foram contabilizados apenas casos noticiados pela imprensa \u2013 o que, segundo especialistas, indica que as ocorr\u00eancias sejam ainda mais numerosas, pois nem todas as mortes s\u00e3o divulgadas.<\/p>\n<p>O ano com mais acidentes fatais foi 2017, quando houve 24 mortes, alta de 140% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Em 2018, houve 13 ocorr\u00eancias at\u00e9 julho \u2013 sinal de que as mortes devem se manter no mesmo patamar de 2017, considerando-se o hist\u00f3rico de distribui\u00e7\u00e3o das ocorr\u00eancias ao longo do ano.<\/p>\n<p>Os Estados que tiveram mais casos s\u00e3o os mesmos que lideram o ranking de produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os: Mato Grosso (28), Paran\u00e1 (20), Rio Grande do Sul (16) e Goi\u00e1s (9). Houve mortes em 13 Estados distintos, em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sorriso (MT), o munic\u00edpio brasileiro com maior valor de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u2013 R$ 3,2 bilh\u00f5es em 2016, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) \u2013 foi tamb\u00e9m o que registrou mais mortes em silos, empatado com a tamb\u00e9m mato-grossense Canarana, com sete casos cada.<br \/>\nTrabalhos mais perigosos no Brasil<\/p>\n<p>&#8220;Os dados s\u00e3o estarrecedores&#8221;, diz \u00e0 BBC News Brasil Idelberto Muniz de Almeida, professor de Medicina do Trabalho da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.<\/p>\n<p>Segundo ele, o levantamento indica que o trabalho em silos est\u00e1 entre as atividades com mais acidentes fatais no pa\u00eds, depois das profiss\u00f5es sujeitas a mortes no tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas oficiais precisas sobre mortes em armaz\u00e9ns de gr\u00e3os no Brasil. Quando trabalhadores sofrem acidentes, cabe ao empregador informar a ocorr\u00eancia ao Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social. No formul\u00e1rio de notifica\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 um c\u00f3digo para armaz\u00e9ns agr\u00edcolas, englobados pela categoria mais abrangente de &#8220;dep\u00f3sitos fixos&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o minist\u00e9rio, o setor de armazenagem \u2013 que inclui o trabalho em silos de gr\u00e3os, mas tamb\u00e9m em v\u00e1rios outros tipos de armaz\u00e9ns \u2013 teve 11,13 mortes a cada 100 mil trabalhadores em 2016, \u00faltimo ano com dados dispon\u00edveis. O \u00edndice deixa o setor entre os 25% campos econ\u00f4micos mais mort\u00edferos para trabalhadores no Brasil.<\/p>\n<p>Em outro sistema de contagem, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho \u2013 bra\u00e7o do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o \u2013 registrou 14 mortes de trabalhadores por asfixia, estrangulamento ou afogamento causados por cereais e derivados entre 2012 e 2017.<\/p>\n<p>O levantamento da BBC News Brasil considera todas as mortes por acidente de trabalho em armaz\u00e9ns de alimentos a granel (n\u00e3o empacotados) que foram noticiadas por ve\u00edculos jornal\u00edsticos. Os casos foram pesquisados por meio de sites de busca, em m\u00eddias sociais e no YouTube.<\/p>\n<h3>Mortes evit\u00e1veis<\/h3>\n<p>O professor Idelberto Almeida afirma que a maioria dos acidentes em silos ocorre quando medidas de preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o adotadas ou n\u00e3o funcionam de forma adequada. &#8220;As estrat\u00e9gias para evitar esses acidentes s\u00e3o amplamente conhecidas h\u00e1 pelo menos 15 anos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Segundo o professor, a ocorr\u00eancia de v\u00e1rios casos em um mesmo Estado ou munic\u00edpio indica que &#8220;o poder p\u00fablico tem se mostrado impotente&#8221; diante do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Em geral, soterramentos em silos matam em instantes. O trabalhador \u00e9 asfixiado ao afundar nos gr\u00e3os e n\u00e3o consegue subir \u00e0 superf\u00edcie, como se fosse sugado por uma areia movedi\u00e7a.<\/p>\n<p>Na maioria dos casos, ele \u00e9 engolido ao caminhar sobre os gr\u00e3os sem cordas de seguran\u00e7a enquanto tenta movimentar as part\u00edculas para desobstruir dutos. Os gr\u00e3os costumam se aglutinar quando h\u00e1 excesso de umidade, travando o funcionamento do silo.<\/p>\n<p>Em outros casos, menos numerosos, o trabalhador \u00e9 encoberto por uma avalanche de gr\u00e3os quando paredes do armaz\u00e9m colapsam \u2013 pondo em risco at\u00e9 quem est\u00e1 fora da constru\u00e7\u00e3o \u2013 ou quando h\u00e1 grandes deslocamento de part\u00edculas dentro da estrutura.<\/p>\n<p>Silos podem ainda explodir se tiverem grande quantidade de p\u00f3 de cereais \u2013 material que se transforma em combust\u00edvel quando em contato com superf\u00edcies muito aquecidas ou fa\u00edscas.<\/p>\n<h3>Sobrevivente de acidente em silo<\/h3>\n<p>Quando \u00e9 envolto pelos gr\u00e3os, o trabalhador raramente sobrevive.<\/p>\n<p>Por isso, quando Anderson Rodrigo Reis come\u00e7ou a afundar em um monte de soja em um silo em Paranapanema (SP), pensou que n\u00e3o escaparia.<\/p>\n<p>&#8220;Gritei: &#8216;pelo amor de Deus, me segura que estou indo para baixo e vou morrer, n\u00e3o estou achando o ch\u00e3o, estou afundando, afundando!'&#8221;, ele conta \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Hoje com 40 anos, Reis trabalhava desde 2014 na Cooperativa Agro Industrial Holambra como ajudante geral.<\/p>\n<p>Naquele dia, em julho de 2017, entrou no silo para ajudar a carregar um caminh\u00e3o. Foi quando um colega, diz, prendeu a perna na pilha de gr\u00e3os ao empurrar a soja para o canal que abastecia o ve\u00edculo.<\/p>\n<p>&#8220;Puxei ele, mas senti que a soja estava fofa e era melhor sair. Ajudei ele a tirar a botina e, quando est\u00e1vamos saindo, afundei de vez.&#8221;<\/p>\n<p>Em alguns segundos, diz o ajudante, os gr\u00e3os chegaram \u00e0 cintura. O colega tentava pux\u00e1-lo pelos ombros, mas a press\u00e3o da soja sobre o corpo impedia que fosse i\u00e7ado.<\/p>\n<p>Quando estava s\u00f3 com o pesco\u00e7o para fora, seu p\u00e9 tocou a borda de uma estrutura met\u00e1lica. Foi naquele ponto que o ajudante geral se apoiou por quase cinco horas, at\u00e9 ser resgatado por uma equipe de bombeiros.<\/p>\n<p>Ele diz que a press\u00e3o da soja o obrigava a respirar &#8220;bem devagarinho&#8221;. &#8220;Vai apertando como lata de sardinha; voc\u00ea n\u00e3o sente dor numa parte, sente em tudo.&#8221;<\/p>\n<p>Reis conta que, apesar da gravidade do acidente, a empresa relutou em esvaziar o silo para facilitar o resgate, pois n\u00e3o queria perder dinheiro com o descarte. Mas relata que os bombeiros insistiram e abriram uma fenda na lateral da constru\u00e7\u00e3o, permitindo que o n\u00edvel de soja baixasse e ele fosse puxado.<\/p>\n<p>O ex-ajudante diz que conhecia os riscos do trabalho em silos e havia sido treinado para a atividade. Ele sabia que, ao caminhar sobre a massa de gr\u00e3os, trabalhadores deveriam estar presos por cordas a um sistema de ancoragem.<\/p>\n<p>Mas afirma que, quando n\u00e3o havia t\u00e9cnicos de seguran\u00e7a no silo, como naquele dia, os supervisores afrouxavam as regras para acelerar os trabalhos. Ele n\u00e3o vestia cinto de seguran\u00e7a quando sofreu o acidente.<\/p>\n<p>Desde aquele epis\u00f3dio, Reis nunca mais conseguiu entrar em silos. Ele diz que pediu \u00e0 empresa para ser transferido a outros setores, mas que, nove meses depois do acidente, foi demitido sem justificativas.<\/p>\n<p>Procurada pela BBC News Brasil, a Cooperativa Agro Industrial Holambra n\u00e3o quis comentar o caso.<\/p>\n<h3>Gases t\u00f3xicos em silos<\/h3>\n<p>Bombeiro em Sorriso (MT), um dos dois munic\u00edpios que registraram mais mortes em silos (7), o tenente Gustavo Souza j\u00e1 atendeu quatro casos de soterramentos em armaz\u00e9ns. Em todos eles, n\u00e3o houve sobreviventes.<\/p>\n<p>Ele diz que, em alguns casos, o trabalhador cai nos gr\u00e3os e \u00e9 soterrado ap\u00f3s passar mal com gases t\u00f3xicos produzidos por sua fermenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda casos em que as mortes s\u00e3o causadas unicamente pela inala\u00e7\u00e3o desses gases \u2013 como em ocorr\u00eancias registradas em Po\u00e7os de Caldas (MG), Cachoeira do Sul (RS) e Tangar\u00e1 da Serra (MT).<\/p>\n<p>No acidente em Tangar\u00e1, em 2011, a v\u00edtima foi justamente um bombeiro que tentava resgatar dois trabalhadores que haviam passado mal com gases t\u00f3xicos em um silo com soja. O soldado Valmir Bezerra de Jesus desmaiou durante a opera\u00e7\u00e3o e passou 17 dias internado antes de morrer. Os dois trabalhadores sobreviveram.<\/p>\n<p>As normas de seguran\u00e7a em silos incluem o uso de sistemas de ventila\u00e7\u00e3o e de detec\u00e7\u00e3o de gases t\u00f3xicos. Em situa\u00e7\u00f5es extremas, trabalhadores s\u00f3 devem entrar nas instala\u00e7\u00f5es com m\u00e1scaras de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Souza diz que resgatar trabalhadores nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 uma das atividades mais temidas entre seus colegas. &#8220;Se a gente n\u00e3o toma cuidado com nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, tamb\u00e9m vira v\u00edtima.&#8221;<\/p>\n<h3>Acidentes em traders de gr\u00e3os<\/h3>\n<p>O levantamento mostra ainda que acidentes fatais ocorreram tanto em armaz\u00e9ns de cooperativas (normalmente geridas por grupos de produtores rurais) e de fazendas individuais quanto em silos de multinacionais que comercializam gr\u00e3os, conhecidas no setor como traders.<\/p>\n<p>Foram registradas mortes em armaz\u00e9ns das gigantes Cargill (4), Bunge (2) e Amaggi (1).<\/p>\n<p>Em nota \u00e0 BBC News Brasil, a Abiove (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de \u00d3leos Vegetais), que representa as tr\u00eas multinacionais, diz que os silos de todas as propriedades e empresas ligadas \u00e0 associa\u00e7\u00e3o est\u00e3o sujeitos a um r\u00edgido controle de seguran\u00e7a, que inclui a identifica\u00e7\u00e3o de riscos, medidas preventivas e capacita\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>Silos que armazenavam milho e soja predominam entre os locais de acidentes fatais, mas tamb\u00e9m houve mortes em armaz\u00e9ns de arroz, caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, ra\u00e7\u00e3o animal e feij\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seis casos, os mortos n\u00e3o eram trabalhadores, e sim parentes que os acompanhavam e jamais poderiam ter entrado nos silos.<\/p>\n<p>Em 2017, uma mulher morreu soterrada em Alta Floresta (MT) enquanto levava um prato de comida ao marido, que trabalhava ali. Dois anos antes, um menino de 8 anos foi soterrado quando brincava em um silo na fazenda dos av\u00f3s, em Tr\u00eas Lagoas (MS).<\/p>\n<p>Desde 2015, outros dois meninos de 7 anos morreram soterrados em armaz\u00e9ns em Tangar\u00e1 da Serra (MT) e Marechal C\u00e2ndido Rondon (PR), e uma menina de 9 anos morreu encoberta pela soja em Cerrito (RS).<\/p>\n<p>Os acidentes ocorrem em um momento em que o pa\u00eds amplia a quantidade de armaz\u00e9ns agr\u00edcolas para acompanhar o aumento na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre 2000 e 2016, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), a capacidade de armazenagem de gr\u00e3os no pa\u00eds cresceu 80%, favorecida em grande medida por linhas de cr\u00e9dito p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Apesar do aumento, a companhia diz que a capacidade de armazenamento do Brasil precisaria crescer mais 48% para cobrir toda a produ\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<h3>Normas de seguran\u00e7a em silos<\/h3>\n<p>As recorrentes mortes em silos no Paran\u00e1, segundo Estado com mais registros (20), mobilizaram o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) local.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 2017, o escrit\u00f3rio do MPT em Londrina, que atua em 70 munic\u00edpios, pediu a todas as empresas com silos informa\u00e7\u00f5es sobre o cumprimento da norma 33 do Minist\u00e9rio do Trabalho, que rege as atividades em ambientes confinados \u2013 categoria que inclui o trabalho em armaz\u00e9ns de gr\u00e3os.<\/p>\n<p>A norma cont\u00e9m quase uma centena de orienta\u00e7\u00f5es para prevenir acidentes nesses espa\u00e7os, entre as quais proibir o acesso de pessoas n\u00e3o treinadas, testar com frequ\u00eancia os equipamentos de seguran\u00e7a e realizar simula\u00e7\u00f5es de salvamento.<\/p>\n<p>O procurador do Trabalho Marcelo Adriano da Silva diz \u00e0 BBC News Brasil que, a partir das informa\u00e7\u00f5es levantadas, o \u00f3rg\u00e3o pedir\u00e1 \u00e0s empresas que se adequem \u00e0 norma ou entrar\u00e1 com uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica para cobr\u00e1-las na Justi\u00e7a a seguir as regras.<\/p>\n<p>Douglas Nunes Vasconcelos, procurador do Trabalho em Mato Grosso, Estado que lidera o ranking de ocorr\u00eancias (28), atribui as mortes a falhas na fiscaliza\u00e7\u00e3o por parte do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego.<\/p>\n<p>Ele afirma que os auditores do minist\u00e9rio respons\u00e1veis por fiscalizar os silos s\u00e3o insuficientes \u2013 e que a car\u00eancia se agravou com os cortes or\u00e7ament\u00e1rios dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Segundo o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais, o n\u00famero de profissionais na ativa \u00e9 o menor dos \u00faltimos 20 anos: h\u00e1 hoje 2.305 auditores-fiscais em todo o pa\u00eds, e 1.339 cargos est\u00e3o vagos.<\/p>\n<p>Em Mato Grosso, auditores baseados em Rondon\u00f3polis e Cuiab\u00e1 s\u00e3o respons\u00e1veis por fiscalizar uma \u00e1rea t\u00e3o extensa quanto a Venezuela.<\/p>\n<p>O procurador diz ainda que, como o trabalho em silos \u00e9 sazonal, muitas empresas costumam terceirizar os servi\u00e7os, recorrendo a trabalhadores tempor\u00e1rios e sem treinamento adequado.<\/p>\n<p>&#8220;Tentamos cobrar as empresas, mas nossa perna \u00e9 curta&#8221;, afirma. No escrit\u00f3rio do MPT em Sinop (MT), onde ele atua, h\u00e1 dois procuradores. A unidade \u00e9 respons\u00e1vel pelo norte mato-grossense, regi\u00e3o com grande produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Procurado pela BBC News Brasil no dia 1\u00b0 de agosto, o Minist\u00e9rio do Trabalho n\u00e3o quis indicar um representante para uma entrevista sobre as mortes em silos.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o disse em nota que o n\u00famero de empresas fiscalizadas em setores que utilizam armaz\u00e9ns agr\u00edcolas (como com\u00e9rcio atacadista de soja, moagem de trigo e beneficiamento de arroz) passou de 35, em 2016, a 713, em 2017. Em 2018, segundo a pasta, j\u00e1 houve 607 empresas inspecionadas.<\/p>\n<p>Questionado sobre as cr\u00edticas do procurador de Mato Grosso, o minist\u00e9rio disse que h\u00e1 hoje 15 silos e armaz\u00e9ns interditados por condi\u00e7\u00f5es inadequadas naquele Estado.<\/p>\n<p>Afirma, por\u00e9m, que &#8220;muitos dos armaz\u00e9ns (em Mato Grosso) est\u00e3o localizados em zonas rurais (&#8230;), o que dificulta a inspe\u00e7\u00e3o in loco&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Devido ao tamanho do Estado, \u00e9 pensado tamb\u00e9m em outras formas de interven\u00e7\u00e3o para potencializar as adequa\u00e7\u00f5es, somando-se \u00e0s inspe\u00e7\u00e3o f\u00edsicas, tais como reuni\u00f5es com os empregadores, notifica\u00e7\u00e3o coletiva e a\u00e7\u00f5es fiscais indiretas&#8221;, afirma.<\/p>\n<h3>Mortes em silos em outros pa\u00edses<\/h3>\n<p>Nos Estados Unidos, pa\u00eds com capacidade de armazenamento de gr\u00e3os quase quatro vezes superior \u00e0 brasileira, houve 23 mortes por soterramento em silos em 2017, segundo um estudo da Purdue University.<\/p>\n<p>At\u00e9 os anos 1970 e 1980, a maioria de mortes em silos nos EUA ocorria quando as unidades explodiam. Normas federais de seguran\u00e7a adotadas a partir de 1988 reduziram drasticamente essas ocorr\u00eancias, mas as mortes anuais por soterramento continuaram na casa dos dois d\u00edgitos.<\/p>\n<p>Naquele pa\u00eds, silos constru\u00eddos em fazendas, que concentram boa parte dos acidentes, n\u00e3o s\u00e3o obrigados a seguir as normas federais de seguran\u00e7a \u2013 regalia atribu\u00edda \u00e0 influ\u00eancia do lobby agr\u00edcola na pol\u00edtica americana.<\/p>\n<p>Na Argentina, outro pa\u00eds com grande produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, mortes em armaz\u00e9ns tamb\u00e9m s\u00e3o frequentes. Em 1985, a explos\u00e3o de um silo na cidade portu\u00e1ria de Bah\u00eda Blanca matou 22 pessoas e gerou como\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Na China, um dos acidentes mais recentes em silos, ocorrido em 2017 na prov\u00edncia de Shandong, causou seis mortes \u2013 l\u00e1, uma avalanche de gr\u00e3os encobriu os trabalhadores.<\/p>\n<h3>Trabalhadores responsabilizados pelos acidentes<\/h3>\n<p>Irm\u00e3o de Edgar Jardel Fragoso Fernandes, um dos trabalhadores soterrados no silo da C. Vale em S\u00e3o Luiz Gonzaga (RS), em 2017, o comerciante Jo\u00e3o Te\u00f3filo Fragoso Fernandes diz que o cumprimento de normas de seguran\u00e7a teria evitado as mortes.<\/p>\n<p>Um laudo de auditores do trabalho ap\u00f3s a ocorr\u00eancia constatou o descumprimento de 27 regras de seguran\u00e7a na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre as falhas citadas estavam a falta de capacita\u00e7\u00e3o dos profissionais, jornadas excessivamente longas e a inadequa\u00e7\u00e3o dos equipamentos de seguran\u00e7a. Segundo o laudo, o silo n\u00e3o tinha qualquer sistema de ancoragem por cordas que impedisse o afundamento dos trabalhadores na massa de soja \u2013 item indispens\u00e1vel para a realiza\u00e7\u00e3o da atividade.<\/p>\n<p>O documento diz que a cooperativa &#8220;culpou apenas os trabalhadores acidentados pela ocorr\u00eancia, afirmando que eles n\u00e3o usavam cintos de seguran\u00e7a e n\u00e3o seguiram os procedimentos&#8221;.<\/p>\n<p>Os auditores afirmam, por\u00e9m, &#8220;que n\u00e3o teria como haver a utiliza\u00e7\u00e3o de cintos de seguran\u00e7a sem pontos de ancoragem adequadamente projetados e instalados&#8221;.<\/p>\n<p>A cooperativa teve o silo interditado ap\u00f3s o acidente.<\/p>\n<h3>Filhos traumatizados pela morte<\/h3>\n<p>Quinze anos mais velho que o irm\u00e3o, Fernandes diz que o tratava como um filho. &#8220;Eu criei esse rapaz. Somos de fam\u00edlia humilde \u2013 nosso pai era pedreiro, passamos por muita luta e desde cedo aprendemos a trabalhar.&#8221;<\/p>\n<p>Edgar tinha um casal de g\u00eameos, hoje com 13 anos, e ajudava a criar os outros dois filhos de sua esposa.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o diz que os g\u00eameos est\u00e3o traumatizados. &#8220;Parece que n\u00e3o caiu a ficha, que ainda n\u00e3o entenderam a realidade de que n\u00e3o t\u00eam mais o pai. Chega a correr \u00e1gua dos olhos, parece que o menino est\u00e1 hipnotizado.&#8221;<\/p>\n<p>Fernandes conta que o ajudante &#8220;era um guri cheio de planos&#8221;, entre os quais fazer faculdade e prestar concurso para policial.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o primeiro acidente fatal em silos da C. Vale. Em 2011, outro trabalhador morreu soterrado por gr\u00e3os de soja em uma unidade da cooperativa em Guarapuava (PR).<\/p>\n<p>A C. Vale enviou uma nota \u00e0 BBC News Brasil dizendo que, nos dois casos, os acidentados eram funcion\u00e1rios terceirizados e haviam passado &#8220;pelos devidos treinamentos para trabalho em espa\u00e7os confinados, com o recebimento de todos os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual necess\u00e1rios ao desempenho das atividades&#8221;.<\/p>\n<p>A cooperativa n\u00e3o respondeu, no entanto, por que tantas falhas de seguran\u00e7a foram detectadas no laudo do Minist\u00e9rio do Trabalho. Diz ter atendido &#8220;prontamente a todas as solicita\u00e7\u00f5es do agente ministerial, n\u00e3o tendo sido instaurado contra si qualquer procedimento disciplinar at\u00e9 o presente momento&#8221;.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia est\u00e1 processando a C. Vale. Fernandes diz que, mais do que uma indeniza\u00e7\u00e3o, os parentes querem que o epis\u00f3dio seja esclarecido.<\/p>\n<p>O comerciante afirma ter ficado indignado com o argumento da cooperativa de que Edgar foi desleixado no momento do acidente \u2013 segundo ele, seu irm\u00e3o nunca reclamava de trabalhar e estava havia v\u00e1rias semanas sem folga.<\/p>\n<p>&#8220;Meu irm\u00e3o morreu num domingo \u00e0s tr\u00eas da tarde. Quantas pessoas est\u00e3o dispostas a trabalhar num domingo? Isso j\u00e1 diz muito sobre ele.&#8221;<\/p>\n<p>(Fonte: BBC Brasil)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os ajudantes Edgar Jardel Fragoso Fernandes, de 30 anos, e Jo\u00e3o de Oliveira Rosa, de 38, iniciavam o expediente na Cooperativa C. Vale, em S\u00e3o Luiz Gonzaga (RS), quando foram acionados para desentupir um canal de um armaz\u00e9m carregado de soja. Era abril de 2017, quando a colheita da oleaginosa confirmava as previs\u00f5es de que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":34813,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34812"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34812"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34812\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34813"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}