{"id":33530,"date":"2018-05-03T10:47:03","date_gmt":"2018-05-03T13:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=33530"},"modified":"2018-05-03T10:47:03","modified_gmt":"2018-05-03T13:47:03","slug":"o-que-e-trabalho-emocional-e-como-ele-sobrecarrega-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2018\/05\/03\/o-que-e-trabalho-emocional-e-como-ele-sobrecarrega-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 \u2018trabalho emocional\u2019. E como ele sobrecarrega as mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Lembrar dos anivers\u00e1rios da fam\u00edlia, fazer a lista de compras, saber de cor o que cada um gosta de comer, agradar. Estar atento \u00e0 sa\u00fade dos amigos e da fam\u00edlia, e convenc\u00ea-los a ir ao m\u00e9dico. Cuidar, socorrer, pacificar, ouvir, sorrir, fazer a gest\u00e3o do cotidiano, responsabilizar-se pelo bem estar de todos ao seu redor.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o algumas das tarefas frequentemente assumidas exclusivamente pelas mulheres no contexto familiar, conjugal e tamb\u00e9m profissional, citadas pela rep\u00f3rter do jornal The Guardian, Rose Hackman, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2015\/nov\/08\/women-gender-roles-sexism-emotional-labor-feminism\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em um artigo<\/a> de 2015.<\/p>\n<p>No texto, Hackman esclarece como esse tipo de trabalho, chamado de\u00a0 trabalho emocional, sobrecarrega as mulheres.<\/p>\n<p>Assim como o trabalho dom\u00e9stico, consiste em atos n\u00e3o remunerados, pouco reconhecidos, ligados ao cuidado e ao trato com as emo\u00e7\u00f5es, que recaem desproporcionalmente sobre elas, educadas para crer que \u201clevam mais jeito\u201d para isso. Para a autora do artigo, confrontar esse desequil\u00edbrio pode ser um pr\u00f3ximo passo revolucion\u00e1rio para o feminismo.<\/p>\n<h3>A origem da ideia<\/h3>\n<p>O conceito foi criado h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, na academia. Foi introduzido pela soci\u00f3loga americana Arlie Hochschild, no livro \u201cThe Managed Heart\u201d, de 1983.<\/p>\n<p>Apenas mais recentemente, por\u00e9m, a ideia <a href=\"https:\/\/thinkolga.com\/2017\/07\/13\/disponibilidade-emocional-nao-e-obrigacao-da-mulher\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vem sendo<\/a> recuperada em <a href=\"https:\/\/www.harpersbazaar.com\/culture\/features\/a12063822\/emotional-labor-gender-equality\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">textos<\/a> e discuss\u00f5es on-line, tornando-se mais difundida.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa, Hochschild tratou do trabalho emocional no ambiente profissional ou corporativo, onde h\u00e1 a expectativa de que o trabalhador em quest\u00e3o module seus sentimentos reais, privilegiando a experi\u00eancia positiva de um cliente ou colega.<\/p>\n<p>Inclui ser agrad\u00e1vel, gentil, tolerante, prestativo e contribuir para a harmonia do local de trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, fun\u00e7\u00f5es que exigem uma grande dose desse trabalho, como a de comiss\u00e1ria de bordo, s\u00e3o majoritariamente desempenhadas por mulheres. As comiss\u00e1rias foram um dos principais exemplos usados por Hochschild.<\/p>\n<p>Professoras, advogadas e pol\u00edticas, por exemplo, tamb\u00e9m s\u00e3o mais cobradas em rela\u00e7\u00e3o a seus colegas homens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gentileza, bom humor e disponibilidade emocional que oferecem \u00e0s pessoas ao redor.<\/p>\n<p>Esses esfor\u00e7os cont\u00ednuos s\u00e3o exaustivos e t\u00eam efeito cumulativo j\u00e1 mostrado <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC4478215\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">por pesquisas<\/a>. Apesar disso, raramente s\u00e3o reconhecidos como fonte leg\u00edtima de sobrecarga ou estresse, e por isso n\u00e3o se refletem em nenhum tipo de compensa\u00e7\u00e3o salarial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/pdf\/10.1111\/j.1540-6210.2004.00373.x\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">No estudo<\/a> \u201cWomen\u2019s Jobs, Men\u2019s Jobs: Sex Segregation and Emotional Labor\u201d, de 2004, as pesquisadoras Mary Ellen Guy e Meredith Newman argumentam que o trabalho emocional contribui para o aprofundamento da desigualdade salarial.<\/p>\n<p>Segundo o artigo, o trabalho emocional faz parte do trabalho de homens e de mulheres \u2013 s\u00e3o atitudes que \u201cazeitam as engrenagens\u201d, fazendo com que as pessoas cooperem, trabalhem bem juntas e se atenham \u00e0s suas tarefas.<\/p>\n<p>A pesquisa aponta que essas compet\u00eancias, no entanto, est\u00e3o ausentes de descri\u00e7\u00f5es de empregos, avalia\u00e7\u00f5es e do c\u00e1lculo dos sal\u00e1rios. S\u00e3o o alicerce de profiss\u00f5es das \u00e1reas de sa\u00fade, sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o e de fun\u00e7\u00f5es como recepcionista, secret\u00e1ria e assistente administrativa.<\/p>\n<p>Elas empregam um n\u00famero maior de mulheres, consideradas naturalmente aptas a agir segundo essas compet\u00eancias emocionais.<\/p>\n<p>\u201cA segrega\u00e7\u00e3o ocupacional \u2013 a tend\u00eancia de que homens e mulheres trabalhem em ocupa\u00e7\u00f5es diferentes \u2013 \u00e9 citada com frequ\u00eancia como raz\u00e3o para a defasagem no sal\u00e1rio das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos homens\u201d, diz o par\u00e1grafo que introduz o estudo.<\/p>\n<p>\u201cMas [esse argumento] imp\u00f5e a quest\u00e3o: o que na ocupa\u00e7\u00e3o das mulheres faz com que elas recebam menos?\u201d, prosseguem as pesquisadoras. \u201cArgumentamos que o trabalho emocional \u00e9 o elo que falta para a explica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h3>Na vida privada<\/h3>\n<p>A propens\u00e3o de mulheres a assumirem esse trabalho extra est\u00e1 longe de ser natural.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.jstor.org\/stable\/3600273?seq=1#page_scan_tab_contents\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Um artigo acad\u00eamico<\/a> importante da soci\u00f3loga Rebecca Erickson, publicado em 2005, ligou a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho emocional \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que elas t\u00eam ocupado na fam\u00edlia e nos c\u00edrculos de amigos \u2013 administrar emo\u00e7\u00f5es \u00e9 algo esperado das mulheres, e que elas se acostumam desde cedo a fazer.<\/p>\n<p>Essa fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de meio per\u00edodo, ou est\u00e1 restrita a apenas uma esfera da vida das mulheres. Transborda para suas rela\u00e7\u00f5es afetivas e \u00edntimas, para os relacionamentos amorosos e rela\u00e7\u00f5es sexuais.<\/p>\n<p>Mesmo fingir um orgasmo pode ser visto como uma express\u00e3o desse gerenciamento da autoestima e do bem estar alheio, segundo <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2015\/nov\/08\/women-gender-roles-sexism-emotional-labor-feminism\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o artigo<\/a> de Rose Hackman no Guardian.<\/p>\n<p>Em um artigo de 2015, publicado no extinto site The Toast (mas que <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20180107060717\/http:\/\/the-toast.net\/2015\/07\/13\/emotional-labor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pode, ainda<\/a>, ser acessado pelo Internet Archive), a rep\u00f3rter Jess Zimmerman aplica o termo a uma vasta gama de trabalhos n\u00e3o reconhecidos.<\/p>\n<p>Em casa, para Zimmerman, o trabalho emocional das mulheres cobre todos os aspectos da rela\u00e7\u00e3o conjugal.<\/p>\n<p>Resgatando a ideia da acad\u00eamica e ativista feminista italiana Silvia Federici, de que o trabalho dom\u00e9stico foi transformado em um atributo natural da personalidade feminina, uma aspira\u00e7\u00e3o e at\u00e9 uma necessidade interna de seu car\u00e1ter, a autora argumenta que o mesmo teria ocorrido com o trabalho emocional, ao se rotular as mulheres como mais intuitivas, emp\u00e1ticas, naturalmente mais dispostas a ajudar ou dar conselhos.<\/p>\n<p>\u201cEm nossa sociedade, atribu\u00edmos um g\u00eanero \u00e0s emo\u00e7\u00f5es quando continuamos a refor\u00e7ar a falsa ideia que mulheres sempre, natural e biologicamente, conseguem sentir, expressar e lidar com as emo\u00e7\u00f5es melhor do que os homens\u201d, disse Lisa Huebner, soci\u00f3loga e professora da Universidade West Chester da Pensilv\u00e2nia, nos EUA, a uma reportagem de 2017 da revista Harper\u2019s Bazaar.<\/p>\n<p>Para Huebner, negar essa habilidade inata n\u00e3o quer dizer que alguns indiv\u00edduos lidem melhor do que outros, pessoalmente, com as emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, segundo ela, \u201cainda n\u00e3o temos evid\u00eancia concreta de que essa habilidade \u00e9 determinada biologicamente pelo sexo. Ao mesmo tempo, encontramos diversas maneiras pelas quais a sociedade garante que meninas e mulheres sejam respons\u00e1veis pelas emo\u00e7\u00f5es, para ent\u00e3o os homens serem liberados [dessa tarefa]\u201d.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Nexo Jornal)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrar dos anivers\u00e1rios da fam\u00edlia, fazer a lista de compras, saber de cor o que cada um gosta de comer, agradar. Estar atento \u00e0 sa\u00fade dos amigos e da fam\u00edlia, e convenc\u00ea-los a ir ao m\u00e9dico. Cuidar, socorrer, pacificar, ouvir, sorrir, fazer a gest\u00e3o do cotidiano, responsabilizar-se pelo bem estar de todos ao seu redor. 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