{"id":33264,"date":"2018-03-29T11:58:50","date_gmt":"2018-03-29T14:58:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=33264"},"modified":"2018-04-03T15:41:31","modified_gmt":"2018-04-03T18:41:31","slug":"gestao-de-empresas-brasileiras-se-mobilizam-para-combater-assedio-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2018\/03\/29\/gestao-de-empresas-brasileiras-se-mobilizam-para-combater-assedio-sexual\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o de empresas brasileiras se mobiliza para combater ass\u00e9dio sexual"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de um ano, a publicit\u00e1ria Duda Borelli foi contratada como analista de marketing em uma startup do setor financeiro, onde seria respons\u00e1vel por gest\u00e3o de redes sociais. Em seus primeiros contatos e reuni\u00f5es com o novo chefe direto, percebeu que o superior a tratava de forma pouco profissional, lan\u00e7ando olhares demorados para o seu corpo, fazendo elogios frequentes e comparando-a com a pr\u00f3pria mulher.<\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 nos primeiros dias, ele me convidou para sair e tomar uma cerveja, mas achei um pouco for\u00e7ado e fora de contexto&#8221;, diz. Com o passar das semanas, Duda percebeu que o comportamento &#8216;atirado&#8217; se estendia a outras colegas de trabalho, ao mesmo tempo em que se retraiu no relacionamento com o chefe. &#8220;Comecei a agir de forma mais fria no trato e a me policiar no que vestia e em como falava&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de comportamento teve consequ\u00eancias: aos poucos, a publicit\u00e1ria come\u00e7ou a ser exclu\u00edda de reuni\u00f5es e decis\u00f5es que diziam respeito \u00e0 sua \u00e1rea. Foi quando ela decidiu ir ao departamento de recursos humanos denunci\u00e1-lo &#8211; n\u00e3o exatamente por ass\u00e9dio sexual, mas pela maneira como estava sendo afastada do processo de trabalho.<\/p>\n<div id=\"pub-inread\">O executivo que a contratou ouviu e acreditou em seu relato, mas nada aconteceu ap\u00f3s a den\u00fancia. &#8220;Comecei a ser ignorada pelos diretores homens da empresa, que deixaram at\u00e9 mesmo de me cumprimentar&#8221;, diz. A sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a e impot\u00eancia fez com que, menos de tr\u00eas meses depois de ser contratada, Duda decidisse sair da empresa, deixando claro o motivo de seu desligamento.<\/div>\n<p>Longe de ser exce\u00e7\u00e3o, casos como o da publicit\u00e1ria s\u00e3o frequentes no Brasil. O Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) estima que 52% das mulheres economicamente ativas j\u00e1 foram v\u00edtimas de ass\u00e9dio sexual no pa\u00eds. Por medo, constrangimento ou desconhecimento, a maioria desses casos n\u00e3o \u00e9 denunciada. Muitos n\u00e3o chegam ao abuso f\u00edsico, mas nem por isso deixam de ser enquadrados na categoria de ass\u00e9dio.<\/p>\n<p>Uma cartilha publicada no ano passado pelo MPT, em parceria com a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, esclarece que h\u00e1 dois tipos principais: por chantagem, quando h\u00e1 exig\u00eancia de uma conduta sexual em troca de benef\u00edcios, ou por intimida\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 provoca\u00e7\u00f5es sexuais ofensivas ou de humilha\u00e7\u00e3o no trabalho. Em ambos os casos, o comportamento precisa ser insistente.<\/p>\n<p>Valdirene Silva de Assis, coordenadora nacional do Coordigualdade, \u00f3rg\u00e3o do MPT para a promo\u00e7\u00e3o de igualdade de oportunidades e elimina\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o no trabalho, explica que o n\u00famero de den\u00fancias dobrou em 2017 em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2012, gra\u00e7as ao aumento do debate internacional sobre o tema e \u00e0 profus\u00e3o de campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, h\u00e1 desdobramentos dessas situa\u00e7\u00f5es que deixam as v\u00edtimas em d\u00favida sobre a natureza do crime. &#8220;Muitas vezes, um ass\u00e9dio sexual malsucedido ou rejeitado pode incorrer em discrimina\u00e7\u00e3o ou ass\u00e9dio moral, caso a empresa n\u00e3o d\u00ea suporte \u00e0 v\u00edtima&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o alguns dos motivos pelos quais o desafio de mensurar o tamanho do problema persiste. A subnotifica\u00e7\u00e3o \u00e9 outro problema enfrentado por \u00f3rg\u00e3os como o MPT. Um dos poucos levantamentos quantitativos sobre o ass\u00e9dio sexual no pa\u00eds foi publicado no ano passado pelo Grupo de Planejamento, uma entidade sem fins lucrativos que ouviu 1.400 profissionais do mercado de publicidade e propaganda em S\u00e3o Paulo. Nesse setor, 67% das mulheres e 52% dos homens revelam j\u00e1 terem sido v\u00edtimas de ass\u00e9dio sexual, enquanto 97% j\u00e1 presenciaram alguma situa\u00e7\u00e3o do tipo em seu ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>A maioria das mulheres tamb\u00e9m precisou conviver com piadas machistas e coment\u00e1rios constrangedores sobre seus corpos &#8211; o que nem sempre configura ass\u00e9dio, mas revela a intimida\u00e7\u00e3o sexual nas empresas do setor. &#8220;Nossa cultura de trabalho por muito tempo definiu que esses processos e rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o naturais. As empresas e seus l\u00edderes precisam assumir uma posi\u00e7\u00e3o contra o ass\u00e9dio, para que os funcion\u00e1rios saibam que a toler\u00e2ncia \u00e9 zero e que os casos ser\u00e3o ouvidos e investigados&#8221;, afirma Ana Cortat, conselheira do Grupo de Planejamento.<\/p>\n<p>O aumento dos casos denunciados, que colocam as empresas em risco jur\u00eddico e reputacional, t\u00eam levado muitas companhias a refor\u00e7ar seus programas de preven\u00e7\u00e3o e combate ao problema. A ICTS Outsourcing, por exemplo, que desenvolve canais de den\u00fancia externos, viu a demanda anual dobrar desde 2014. O s\u00f3cio-diretor Cassiano Machado explica que os canais s\u00e3o apenas a ponta de um processo que compreende tamb\u00e9m a\u00e7\u00f5es preventivas de informa\u00e7\u00e3o, implementa\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos de \u00e9tica e conduta formais.<\/p>\n<p>Quando uma reclama\u00e7\u00e3o chega ao canal, o ideal \u00e9 que todos os outros passos j\u00e1 tenham sido dados pela empresa. &#8220;A partir da den\u00fancia, iniciamos um processo de apura\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o que avalia comunica\u00e7\u00f5es corporativas diretas e indiretas e at\u00e9 informa\u00e7\u00f5es obtidas em pesquisas de clima&#8221;, afirma. Se a investiga\u00e7\u00e3o concluir que houve o ass\u00e9dio, a empresa pode decidir por desde orientar o profissional at\u00e9 demiti-lo por justa causa.<\/p>\n<p>A demiss\u00e3o \u00e9 a medida punitiva adotada pela empresa Stefanini IT Solutions ao encontrar casos de ass\u00e9dio sexual comprovado. No ano passado, a empresa de 13 mil funcion\u00e1rios implementou um programa de compliance, que refor\u00e7ou o c\u00f3digo de \u00e9tica da empresa e criou um canal de den\u00fancia an\u00f4nimo para que funcion\u00e1rios pudessem comunicar problemas como ass\u00e9dio sexual e moral. &#8220;Ajudou muito na preven\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que tivemos casos no passado e as pessoas deixavam de denunciar porque tinham vergonha de falar abertamente sobre o assunto&#8221;, afirma Washington Souza, gerente executivo de governan\u00e7a da empresa.<\/p>\n<p>O canal passa por auditorias frequentes e investiga todas as den\u00fancias que recebe, observando o comportamento do acusado no hist\u00f3rico de imagens das c\u00e2meras internas, al\u00e9m de sua comunica\u00e7\u00e3o via e-mail e chats. &#8220;As den\u00fancias s\u00e3o poucas, mas quando o ass\u00e9dio \u00e9 comprovado, o funcion\u00e1rio \u00e9 desligado&#8221;, diz Souza. Al\u00e9m do canal de den\u00fancia, a empresa usa a TV corporativa para refor\u00e7ar a cultura anti-ass\u00e9dio e promove treinamentos peri\u00f3dicos para todos os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os\u00a0treinamentos t\u00eam sido uma alternativa popular\u00a0entre as empresas que querem prevenir o ass\u00e9dio no ambiente de trabalho, explica Robson Vitorino, s\u00f3cio-fundador da Maxta, que promove cursos sobre o tema. Ele conta que, nos \u00faltimos dois anos, vem crescendo o interesse no treinamento sobre ass\u00e9dio sexual e moral, que hoje \u00e9 um dos mais vendidos pela empresa. &#8220;Trabalhamos com duas a\u00e7\u00f5es, a de despertar a consci\u00eancia moral e a de relembrar o risco das puni\u00e7\u00f5es&#8221;, explica. &#8220;Muitas empresas pautam seus c\u00f3digos de conduta na cultura do medo, mas a parte mais negligenciada e que traz resultados de m\u00e9dio e longo prazo \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o dessa consci\u00eancia&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Uma das medidas para engajar funcion\u00e1rios com essa cultura \u00e9 torn\u00e1-los respons\u00e1veis pelas situa\u00e7\u00f5es que presenciam ou das quais tenham conhecimento. Em companhias como a TransUnion Brasil, todos os gestores t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de comunicar qualquer fato suspeito, e a coniv\u00eancia pode resultar em a\u00e7\u00f5es administrativas e at\u00e9 demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 responsabilidade do l\u00edder respeitar e fomentar o ambiente seguro, por isso n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel conviver com uma situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio&#8221;, diz Alfredo Ribeiro, diretor de recursos humanos da empresa, que tamb\u00e9m conta com um canal de den\u00fancias an\u00f4nimo e treinamentos anuais sobre o c\u00f3digo de conduta.<\/p>\n<p><em>(Fonte: Valor)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de um ano, a publicit\u00e1ria Duda Borelli foi contratada como analista de marketing em uma startup do setor financeiro, onde seria respons\u00e1vel por gest\u00e3o de redes sociais. 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