{"id":3233,"date":"2015-08-14T10:34:29","date_gmt":"2015-08-14T13:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2015\/08\/14\/principio-responsabilidade\/"},"modified":"2015-08-14T10:34:29","modified_gmt":"2015-08-14T13:34:29","slug":"principio-responsabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2015\/08\/14\/principio-responsabilidade\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpio Responsabilidade"},"content":{"rendered":"<p>Princ\u00edpio Responsabilidade<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para Hans Jonas, inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas devem ser acolhidas com cautela e temor<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Muito embora o enunciado do \u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade\u201d, proposto pelo pensador alem\u00e3o Hans Jonas (1903-1993), n\u00e3o seja novo, apenas recentemente a evoca\u00e7\u00e3o desse Princ\u00edpio passou a ser explicitamente utilizada em nosso pa\u00eds, em debate sobre o grave problema ambiental e ocupacional causado pela crescente \u201cdepend\u00eancia qu\u00edmica\u201d dos agricultores brasileiros, aos agrot\u00f3xicos, em especial aos herbicidas. Todas as estat\u00edsticas econ\u00f4micas, agr\u00edcolas e at\u00e9 qu\u00edmicas mostram que o consumo de agrot\u00f3xicos no Brasil vem crescendo de forma acelerada, principalmente nos cultivares geneticamente modificados, mais conhecidos como \u201ctransg\u00eanicos\u201d, de soja, de milho, de algod\u00e3o, entre outros. E h\u00e1 estudos que mostram que o aumento da propor\u00e7\u00e3o de \u201ctransg\u00eanicos\u201d na agricultura \u2013 sobretudo com sementes geneticamente modificadas para inserir nas plantas suposta toler\u00e2ncia ou resist\u00eancia a herbicidas (glifosato, 2,4-D, entre outros) &#8211; tem provocado n\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o, mas o aumento do consumo destes pr\u00f3prios herbicidas, bem como de outros que foram aplicados para combater pragas que passam a desenvolver surpreendente resist\u00eancia.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O fato portador de futuro, aqui saudado, \u00e9 o da evoca\u00e7\u00e3o do \u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade\u201d, muito perto de n\u00f3s, e, felizmente, no epicentro do debate de um grave problema, o qual, at\u00e9 agora, mais vezes tem sido analisado unicamente sob a \u00f3ptica deslumbrada dos fabulosos avan\u00e7os da Biotecnologia, da Engenharia Gen\u00e9tica e do \u201cmelhorismo\u201d de sementes e de gr\u00e3os agr\u00edcolas, acompanhada por indicadores de produtividade, aparentemente inquestion\u00e1veis.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Contudo, se um fato portador de futuro \u00e9 caracterizado por \u201csinais \u00ednfimos, por sua dimens\u00e3o presente, existentes no ambiente, mas imensos por suas consequ\u00eancias e potencialidades\u201d (Michel Godet), quero crer que a evoca\u00e7\u00e3o correta de Hans Jonas e de seu \u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade\u201d, neste contexto, \u00e9 alentadora, e \u201ctem futuro\u201d&#8230;<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Publicado originalmente em 1979, o livro \u201cO princ\u00edpio responsabilidade: ensaio de uma \u00e9tica para a civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d tem hoje excelente vers\u00e3o em Portugu\u00eas, gra\u00e7as \u00e0 Contraponto\/PUC-RJ (2006, 354 p.).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Hans Jonas come\u00e7a seu livro, evocando a mitologia grega: \u201co Prometeu definitivamente desacorrentado, ao qual a ci\u00eancia confere for\u00e7as antes inimagin\u00e1veis e a economia o impulso infatig\u00e1vel, clama por uma \u00e9tica que, por meio de freios volunt\u00e1rios, impe\u00e7a o poder dos homens de se transformar em uma desgra\u00e7a para eles mesmos\u201d. Prop\u00f5e, ele mesmo, uma nova \u00e9tica, constru\u00edda a partir da constata\u00e7\u00e3o de que a \u00e9ticas tradicionais encontravam-se apenas dentro dos limites do ser humano, n\u00e3o afetando a natureza. A natureza n\u00e3o era objeto da responsabilidade humana, pois ela cuidaria de si mesma. A \u00e9tica tinha a ver apenas com o aqui e o agora. Em substitui\u00e7\u00e3o ao antigo imperativo categ\u00f3rico de Kant \u2013 \u201cage de tal maneira que o princ\u00edpio de tua a\u00e7\u00e3o se transforme numa lei universal\u201d \u2013 Jonas prop\u00f4s um novo imperativo: \u201cage de tal maneira que os efeitos de tua a\u00e7\u00e3o sejam compat\u00edveis com a perman\u00eancia de uma vida humana aut\u00eantica\u201d, ou em uma formula\u00e7\u00e3o negativa: \u201cn\u00e3o ponhas em perigo a continuidade indefinida da humanidade na Terra\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>No contexto do que denominou \u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade\u201d, Jonas defendeu a ideia de que o \u201cprimeiro dever\u201d da \u00e9tica do futuro \u00e9 visualizar os efeitos de longo prazo. Mas a marca central da proposta do pensador alem\u00e3o \u00e9 a que ele denominou de \u201cheur\u00edstica do temor\u201d. Seria n\u00e3o apernas um conceito te\u00f3rico, mas, sobretudo, um procedimento \u00e9tico e pr\u00e1tico, que faz parte de uma tentativa de (re)orienta\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es humanas. O necess\u00e1rio \u201ctemor\u201d seria uma alternativa \u00e0 dimens\u00e3o ut\u00f3pica ou ing\u00eanua, acr\u00edtica e deslumbrada, da t\u00e9cnica. Por isso, como princ\u00edpio heur\u00edstico, o \u201ctemor\u201d n\u00e3o \u00e9 um sentimento de ansiedade, antes, um sentimento que desperta a capacidade reflexiva. Um \u201cimperativo de prud\u00eancia hiperb\u00f3lica\u201d, elemento que preveniria a humanidade de seu pr\u00f3prio desaparecimento. O \u201ctemor\u201d, na concep\u00e7\u00e3o de Jonas, mobilizaria o dever \u00e9tico de responsabilidade diante do perigo ou at\u00e9 mesmo da amea\u00e7a representada pela magnitude da t\u00e9cnica moderna.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Portanto, evocar o \u201cPrinc\u00edpio Responsabilidade\u201d no debate das atuais inter-rela\u00e7\u00f5es perversas entre \u201ctransg\u00eanicos\u201d e \u201cagrot\u00f3xicos\u201d, em nosso pa\u00eds, pode ser um ousado e promissor caminho para a revis\u00e3o das atuais pol\u00edticas permissivas, at\u00e9 agora marcadas apenas pela euforia a\u00e9tica e pela escassa reflex\u00e3o sobre a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e os riscos para a sa\u00fade humana!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo publicado na Revista Prote\u00e7\u00e3o, o diretor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da ANAMT, Prof. Ren\u00e9 Mendes, aborda o Princ\u00edpio Responsabilidade, atualmente debatido no Brasil por conta do uso de agrot\u00f3xicos na agricultura brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}