{"id":31720,"date":"2017-10-16T13:07:41","date_gmt":"2017-10-16T15:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=31720"},"modified":"2017-10-16T14:11:58","modified_gmt":"2017-10-16T16:11:58","slug":"no-rio-a-policia-que-mais-mata-e-tambem-a-que-mais-morre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2017\/10\/16\/no-rio-a-policia-que-mais-mata-e-tambem-a-que-mais-morre\/","title":{"rendered":"No Rio, a pol\u00edcia que mais mata \u00e9 tamb\u00e9m a que mais morre"},"content":{"rendered":"<p>Chovia no Rio e Pedro Ara\u00fajo acabava de ser abatido com um disparo na cabe\u00e7a. Havia atendido um caso de viol\u00eancia dom\u00e9stica e ia registrar a ocorr\u00eancia quando cruzou com um bonde de criminosos armados numa regi\u00e3o supostamente pacificada. Iniciou-se um tiroteio e Pedro, de 39 anos, foi atingido. Fardado e ainda agarrado ao seu fuzil dava para ver o cabo respirar agonizante. Estava sozinho, deitado de barriga para cima, num ch\u00e3o molhado e sujo. Ningu\u00e9m o socorria. Pelo contr\u00e1rio. Um v\u00eddeo de quase dois minutos mostra como um grupo de moradores, assim como uma dezena de motoristas que passa pelo local, olham com indiferen\u00e7a seu corpo. Ele n\u00e3o parece ser algu\u00e9m resgat\u00e1vel, mas sim um \u201ccana fudid\u00e3o\u201d com \u201co maior burac\u00e3o\u201d na testa, como dizem durante a grava\u00e7\u00e3o. A \u00fanica pessoa que se aproxima de Pedro \u00e9 um rapaz de blusa listrada para roubar sua arma. \u201cAgarra o meiota!\u201d, grita a turma se referindo ao fuzil autom\u00e1tico leve 7.62 mm usado pelo PM. \u201cS\u00e3o 20.000 [reais]!\u201d.<\/p>\n<p>Pedro, que tem sal\u00e1rio de 2.900 reais, sete vezes menos que o pre\u00e7o do fuzil, se debate entre a vida e a morte desde o dia 28 de mar\u00e7o. Ele foi visto por esses moradores como mais um membro da pol\u00edcia que mais mata no Brasil. Mas ela tamb\u00e9m \u00e9 a que mais morre, segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O v\u00eddeo da sua agonia foi mais um baque numa tropa que, este ano, enterrou um policial a cada dois dias. Quatro das 50 v\u00edtimas foram, ainda, selvagemente torturadas e depois carbonizadas por seus algozes, traficantes de drogas. No Rio, secar a farda no forno, atr\u00e1s da geladeira, ou esconder a identifica\u00e7\u00e3o no estepe do porta-malas virou protocolo de sobreviv\u00eancia para muitos dos cerca de 47.000 homens da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na passada quinta-feira, no gramado do cemit\u00e9rio Jardim da Saudade, na zona Oeste do Rio, duas fileiras de policiais militares prestavam contin\u00eancia, com os olhos chorosos, diante de mais um caix\u00e3o. Era o dia em que dois PMs foram flagrados executando dois bandidos rendidos no ch\u00e3o, ap\u00f3s um confronto que tamb\u00e9m acabou com a vida de uma menina de 13 anos numa escola, mas era tamb\u00e9m o dia do enterro do soldado Fernando Santos, de 25 anos.<\/p>\n<p>Fernando foi morto um dia antes ao tentar impedir um assalto, no bairro do Recreio. Levou um tiro no peito. Jefferson Cruz chorava a perda do seu amigo da inf\u00e2ncia entre gritos de desespero dos familiares: \u201cFoi um ato heroico, mas eu perdi um irm\u00e3o por uma profiss\u00e3o ingrata, que n\u00e3o d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es aos policiais. N\u00e3o tem armamento, n\u00e3o tem colete, n\u00e3o tem assist\u00eancia social para a fam\u00edlia. Ficamos a merc\u00ea da marginalidade, melhor armada que nossos policiais\u201d.<\/p>\n<p>Se continuar nesse ritmo, o n\u00famero de v\u00edtimas atingir\u00e1 n\u00edveis s\u00f3 vistos em 1994 e 1995, quando come\u00e7aram a ser registradas as mortes dos agentes e perderam-se 227 e 189 policiais, respectivamente, segundo dados da PM que incluiu tamb\u00e9m nessa contagem os falecimentos por acidentes de tr\u00e2nsito, suic\u00eddio ou causas naturais. Os n\u00fameros, apesar de menores nos \u00faltimos anos, beiram sempre os tr\u00eas d\u00edgitos anuais.<\/p>\n<p>Thiago Machado Costa, de 31 anos, que era campe\u00e3o de kickboxing e liderava um projeto social para crian\u00e7as, foi um dos 121 policiais militares na ativa assassinados em 2016, segundo n\u00fameros do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Ele amava ser policial mas come\u00e7ou a sentir medo de morrer. A vi\u00fava, Fabiana Da Cunha, de 44 anos, que recebe sua pens\u00e3o com constantes atrasos devido \u00e0 incapacidade financeira do Estado, lamenta todos os dias que a decis\u00e3o do marido de mudar de profiss\u00e3o chegasse tarde demais. \u201cEle come\u00e7ou a dizer que queria sair da PM no dia em que ajudou a socorrer um amigo baleado, um ano antes de morrer. Dizia que estava com medo de acontecer a mesma coisa com ele. Come\u00e7ou a estudar para outros concursos, queria ser bombeiro\u201d, lembra Fabiana aos prantos. \u201cEle arrastou e conseguiu tirar o amigo do alto do morro e lev\u00e1-lo para o hospital, mas n\u00e3o resistiu. Thiago tinha a farda cheia de sangue, chorava igual crian\u00e7a e foi obrigado, mesmo assim, a cumprir seu hor\u00e1rio at\u00e9 o final\u201d.<\/p>\n<p>O soldado estava no WhatsApp com sua mulher quando foi alertado pelo r\u00e1dio do roubo de um carro em Niter\u00f3i, a \u00e1rea onde patrulhava, na regi\u00e3o metropolitana de Rio. Come\u00e7ou uma persegui\u00e7\u00e3o e um tiroteio e Fabiana ficou aguardando uma mensagem que nunca chegou. Thiago foi baleado na cabe\u00e7a e morreu uma semana depois. \u201cEu n\u00e3o tenho mais ch\u00e3o, nosso casamento era um conto de fadas. Ele era importante para as pessoas que o conheciam, era um bom policial, um homem honesto, mas hoje n\u00e3o \u00e9 mais que um n\u00famero. E isso para qu\u00ea?\u201d, questiona a vi\u00fava. \u201cO dono do carro roubado at\u00e9 reclamou por n\u00e3o ter conseguido recuper\u00e1-lo\u201d.<br \/>\nSal\u00e1rios baixos e armas obsoletas<\/p>\n<p>Destrinchar as causas das mortes de policiais ganhou prioridade na corpora\u00e7\u00e3o, desprestigiada pelos excessos, mas tamb\u00e9m castigada pela crise do Estado \u2013 chegou a faltar alimentos nos batalh\u00f5es \u2013 e o aumento da viol\u00eancia. Uma comiss\u00e3o de PMs estuda hoje o fen\u00f4meno e acaba de apresentar suas conclus\u00f5es em um documento interno que exp\u00f5e as feridas abertas da PM fluminense. Segundo o relat\u00f3rio, ao qual o <em>EL PA\u00cdS<\/em> teve acesso, as causas das mortes dos agentes passam por um mau treinamento que pouco tem a ver com a realidade das ruas \u2013 o policial n\u00e3o treina com alvos em movimento, por exemplo \u2013, chegando a armas e coletes obsoletos e ve\u00edculos n\u00e3o blindados. Faltam tamb\u00e9m protocolos que tornem o soldado capaz de reagir ou escapar de emboscadas. O mesmo documento aponta os baixos sal\u00e1rios que obrigam os PMs a viverem em \u00e1reas de risco e assumir trabalhos complementares, os ilegais bicos, assim como a corrup\u00e7\u00e3o na corpora\u00e7\u00e3o \u2013 h\u00e1 policiais que morrem pelo envolvimento em atividades criminosas. Completa a lista a cobran\u00e7a por uma lei mais r\u00edgida sem progress\u00e3o de pena, embora em 2015 as condena\u00e7\u00f5es pelos crimes contra agentes de seguran\u00e7a tenham sido endurecidas.<\/p>\n<p>Apesar de mais de dois ter\u00e7os dos policiais morrerem durante sua folga, quando est\u00e3o mais expostos, distra\u00eddos e desprotegidos, a quantidade de agente que morre matando \u2013 cada vez mais \u2013 revela os n\u00edveis de viol\u00eancia aos que o Rio chegou, numa guerra que <em>justifica<\/em> v\u00edtimas de ambos os lados. Os confrontos no Estado, 4.212 em 2016, aumentaram 300% em apenas cinco anos, segundo dados do relat\u00f3rio da PM. Com os tiroteios cresceu a morte de policiais (275%), mas tamb\u00e9m de \u201cmarginais\u201d (66%), como s\u00e3o denominadas genericamente pela corpora\u00e7\u00e3o as v\u00edtimas nos confrontos. A cada policial morto, morrem 23 \u201cmarginais\u201d, segundo dados da Intelig\u00eancia da PM. Isto \u00e9: pelos 30 PMs mortos em confronto em 2016, morreram 701 supostos bandidos. \u201cA sensa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade que o policial vive aumenta nossa necessidade de reagir. Voc\u00ea imaginar que um PM do Rio, que vive o confronto todo dia, que vive numa zona de guerra, \u00e9 um cara equilibrado \u00e9 imposs\u00edvel. Voc\u00ea est\u00e1 mergulhado na guerra\u201d, avalia a coronel Viviane Duarte, um dos seis membros da comiss\u00e3o da PM sobre vitimiza\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>\u201cQuando o soldado ingressa na pol\u00edcia j\u00e1 \u00e9 um morto vivo, porque acaba sendo v\u00edtima e ref\u00e9m dos preconceitos de uma pol\u00edtica p\u00fablica errada. H\u00e1 toda uma constru\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-los acreditar que s\u00e3o her\u00f3is, que devem morrer pelo dever\u201d, avalia Jaqueline Muniz, professora de gradua\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a p\u00fablica da Universidade Federal Fluminense. \u201cEles precisam acreditar que v\u00e3o morrer em nosso nome, para que consigam aceitar a cultura de guerra contra o crime, uma esp\u00e9cie de cortina de fuma\u00e7a para acobertar as rela\u00e7\u00f5es entre os setores do Estado e as fac\u00e7\u00f5es criminosas do Rio\u201d, completa. Para ela, a pol\u00edcia deve ser p\u00fablica e estadual, mas no Rio \u00e9 particular \u201ce atende a interesses criminosos dos poderosos. A corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vende e silencia a autoridade policial, deixando o agente da esquina inseguro no seu trabalho. Assim temos uma pol\u00edcia forte para os fracos e fraca para os fortes\u201d, conclui Muniz.<\/p>\n<p>O sargento reformado Milton Pinto, de 50 anos, sobreviveu \u00e0 sua pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o. Depois de fazer umas compras a pedido da sua mulher, o carro de Pinto teve um problema de temperatura que o obrigou a parar num posto de gasolina em Campo Grande, na zona oeste da cidade. Apareceram ent\u00e3o tr\u00eas homens armados. \u201cEu tinha minha pistola, tentei reagir, mas n\u00e3o tive tempo. Entraram no meu carro, me perguntaram se eu era policial e respondi que sim. Tinha muito orgulho de ser PM\u201d, relata ele pelo telefone de Mag\u00e9, a 60 quil\u00f4metros do centro do Rio. \u201cFui levado para dentro de uma favela para ser executado. \u2018Deixa eu matar logo!\u2019, gritavam. Levei o primeiro tiro dentro do carro, mas meti a m\u00e3o na porta do motorista e consegui sair. Levei mais dois tiros. S\u00f3 Deus sabe como consegui correr, pular dois muros e ser socorrido\u201d, lembra. Dez anos depois, por medo da fam\u00edlia, Pinto n\u00e3o vai nem ao shopping. \u201cFiquei traumatizado\u201d.<\/p>\n<p>O tenente tem clareza sobre quem \u00e9 o culpado por tanta morte: o Estado. \u201cO Estado est\u00e1 formando mal e bota um garoto na rua com cinco tiros de treinamento. O Estado tamb\u00e9m remunera mal, o policial n\u00e3o ganha o suficiente para se permitir n\u00e3o trabalhar nas folgas e, ainda, tem que morar em \u00e1rea de risco\u201d, critica ele. \u201cO Estado teria que dar condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, moradia, ajudar na educa\u00e7\u00e3o dos filhos&#8230; mas perdeu a m\u00e3o\u201d. Pinto, que se voltasse atr\u00e1s tentaria ser mais r\u00e1pido ao pegar sua arma, reconhece que n\u00e3o consegue deixar a pistola em casa, embora saiba que \u00e9 um risco.<\/p>\n<p>O uso de armamento por policiais de folga \u00e9 uma das quest\u00f5es mais controversas no debate sobre a letalidade e vulnerabilidade dos agentes. O assunto foi motivo de pol\u00eamica semanas atr\u00e1s quando o diretor da Divis\u00e3o de Homic\u00eddios, Rivaldo Barbosa, afirmou que &#8220;se os policiais assaltados n\u00e3o usassem armas, 80% deles n\u00e3o teriam morrido&#8221;. Barbosa pretendia explicar que a arma, muitas vezes, exp\u00f5e o policial como tal e acaba sendo mais um salvo-conduto direto para a morte do que uma prote\u00e7\u00e3o. Sua an\u00e1lise enfureceu parte da tropa, que viu na fala um convite para desarmar policiais, mas ela tem respaldo tamb\u00e9m na PM. Mesmo que isso signifique reconhecer que lutam em uma guerra de perdedores. A coronel Viviane Duarte concorda: \u201c\u00c9 um fato que o Rio de Janeiro se tornou t\u00e3o perigoso que levar uma arma acaba expondo o policial. Ele acha que est\u00e1 mais seguro armado, mas se ele fosse sem arma e n\u00e3o identificado como policial, n\u00e3o ter\u00edamos a propor\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas que hoje temos\u201d, avalia Duarte. \u201cAgora, o policial ouvir que tem que se esconder \u00e9 muito constrangedor. \u00c9 vergonhoso. \u00c9 reconhecer que est\u00e1 perdendo a guerra\u201d.<\/p>\n<p><em>(Fonte: El Pa\u00eds)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chovia no Rio e Pedro Ara\u00fajo acabava de ser abatido com um disparo na cabe\u00e7a. Havia atendido um caso de viol\u00eancia dom\u00e9stica e ia registrar a ocorr\u00eancia quando cruzou com um bonde de criminosos armados numa regi\u00e3o supostamente pacificada. Iniciou-se um tiroteio e Pedro, de 39 anos, foi atingido. 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