{"id":31550,"date":"2017-09-14T11:02:17","date_gmt":"2017-09-14T14:02:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/?p=31550"},"modified":"2017-09-14T11:04:47","modified_gmt":"2017-09-14T14:04:47","slug":"cesio-137-trabalhadores-foram-sem-protecao-aos-pontos-com-radiacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2017\/09\/14\/cesio-137-trabalhadores-foram-sem-protecao-aos-pontos-com-radiacao\/","title":{"rendered":"C\u00e9sio-137: trabalhadores foram sem prote\u00e7\u00e3o aos pontos com radia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 30 anos, v\u00edtimas revisitaram locais ligados ao acidente radiol\u00f3gico com o c\u00e9sio-137 e relembraram os momentos traum\u00e1ticos que viveram em setembro de 1987. Muitos carregam at\u00e9 hoje sequelas, tanto f\u00edsicas quanto psicol\u00f3gicas, ap\u00f3s terem contato direta ou indiretamente com o material. Eles relatam que sofreram v\u00e1rios tipos de humilha\u00e7\u00f5es, como serem agredidos ao andar na rua, expulsos de \u00f4nibus e at\u00e9 &#8220;lavados como uma Kombi&#8221; no processo de descontamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 no fundo, a gente sofre muito, a gente n\u00e3o deixa de reviver as perdas. N\u00e3o s\u00f3 materiais, mas principalmente vidas e o direito de ir e vir\u201d, disse Odesson Alves Ferreira, membro da fam\u00edlia mais afetada pelo c\u00e9sio na \u00e9poca.<\/p>\n<p>O acidente aconteceu ap\u00f3s dois catadores de materiais recicl\u00e1veis encontrarem um aparelho de radioterapia abandonado em uma antiga cl\u00ednica de radiologia. Eles come\u00e7aram a desmontar o equipamento em casa e, na sequ\u00eancia, o venderam a um ferro-velho, onde foi feita a descoberta do p\u00f3 que brilhava \u00e0 noite. Oficialmente, quatro pessoas morreram v\u00edtimas do p\u00f3 azul radioativo, entre elas a menina Leide das Neves, de 6 anos, e outras 249 tiveram algum tipo de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira parada do cilindro com a c\u00e1psula de c\u00e9sio ocorreu na Rua 57, no Setor Central, onde foi desmontado, a marretadas. Na \u00e9poca, a resid\u00eancia foi demolida devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o no local. At\u00e9 hoje, o lote est\u00e1 vazio e coberto de concreto. A falta de identifica\u00e7\u00f5es oficiais sobre o acidente ou memoriais em homenagem \u00e0s v\u00edtimas \u00e9 quase uma regra em todos os pontos afetados. Nesse local, apenas um grafite com elementos radiativos faz refer\u00eancia ao que aconteceu ali, h\u00e1 30 anos.<\/p>\n<p>O motorista Jason Franco Rocha conta que esteve v\u00e1rias vezes no local atingido para retirar o entulho e levar para Abadia de Goi\u00e1s, onde todos os rejeitos foram enterrados. Trabalhando inicialmente com roupas comuns, do dia a dia, achava que desempenharia uma tarefa rotineira.<\/p>\n<p>\u201cViemos para c\u00e1 sem saber de nada. Nos mandaram falando que era um vazamento de g\u00e1s. S\u00f3 do terceiro dia em diante \u00e9 que ficamos sabendo da gravidade do problema. Daqui saiu televis\u00e3o, cachorro, galinha, o que tinha aqui foi encaixotado. N\u00e3o sobrou nada\u201d, contou.<\/p>\n<p>Ele, assim como outras dezenas de v\u00edtimas, era funcion\u00e1rio do ent\u00e3o Consorcio Rodovi\u00e1rio Intermunicipal S.A. (Crisa), que ficava na Avenida Portugal, no Setor Oeste, em Goi\u00e2nia. Muitos foram mandados \u2013 inclusive sem o material de prote\u00e7\u00e3o adequado, em um primeiro momento &#8211; para os v\u00e1rios pontos por onde o material radioativo passou. Esses trabalhadores recolhiam todo o tipo de rejeito. Hoje, no local, existe um hipermercado.<\/p>\n<p>Ele lembra do susto das pessoas ap\u00f3s eles receberem as roupas pr\u00f3prias para o trabalho: &#8220;Quando a gente recebeu os macac\u00f5es para trabalhar, as pessoas assustavam quando viam a gente, parecia at\u00e9 um astronauta\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das lembran\u00e7as, ele guarda fotos que mostram os trabalhadores sobre os cont\u00eaineres com os rejeitos radioativos, sua carteira de funcion\u00e1rio do Crisa e at\u00e9 uma esp\u00e9cie de caneta para sinalizar o n\u00edvel de radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEla tinha uma pilha, uma bateria dentro, e a gente sempre deixava no bolso. Quando a radia\u00e7\u00e3o era muito grande, ela come\u00e7ava a bater no peito e a gente sabia que ali estava com muita radia\u00e7\u00e3o\u201d, completou.<\/p>\n<p>\u201cA gente era enganado, n\u00e3o sab\u00edamos que tipo de risco corr\u00edamos, que tipo de problemas pod\u00edamos ter, igual eu e muitos colegas temos. Um dia, peguei um \u00f4nibus e, quando cheguei no Terminal de \u00f4nibus do Dergo, quatro homens me abordaram e perguntaram se eu trabalhava no Crisa. Eu disse que sim, e mandaram eu descer e come\u00e7aram a me atacar, me empurrar para fora do \u00f4nibus\u201d, lembra com muita tristeza o ex-servidor do Crisa, Cl\u00f3vis Raimundo da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>Descontamina\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Devido \u00e0 dimens\u00e3o do acidente milhares de goianienses precisaram passar por monitoramento e descontamina\u00e7\u00e3o no Est\u00e1dio Ol\u00edmpico, na Avenida Parana\u00edba, no Setor Central. Odesson Ferreira pisou no local pela primeira vez ap\u00f3s 30 anos e se lembra vividamente do que passou naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 irm\u00e3o de Devair, dono do ferro-velho onde a c\u00e1psula do c\u00e9sio-137 foi retirada, e de Ivo, que levou o material radioativo para casa e mostrou para os parentes, inclusive a filha, Leide das Neves, s\u00edmbolo da trag\u00e9dia e que morreu ap\u00f3s fazer um lanche com as m\u00e3os sujas com o p\u00f3 azul.<\/p>\n<p>Ele, que era motorista de \u00f4nibus na \u00e9poca, lembra-se da fila que se formou indo da Avenida Parana\u00edba, contornando o est\u00e1dio e chegando \u00e0 entrada de jogadores. Todos eram monitorados: as pessoas que estavam mais contaminadas iam para dentro do gramado. As que estavam com n\u00edveis mais baixos iam para as arquibancadas, e outras eram liberadas.<\/p>\n<p>\u201cEu, por exemplo, fui para casa vestido com um avental descart\u00e1vel, porque minha roupa, sapato, uniforme da empresa onde eu trabalhava, tudo ficou aqui, no dia 30 de setembro\u201d, disse.<\/p>\n<h3>Traumas e sequelas<\/h3>\n<p>Todos que tiveram algum contato com a pedra azul e radioativa do c\u00e9sio-137 relatam algum tipo de sequela ou trauma.<\/p>\n<p>O mec\u00e2nico de m\u00e1quinas do Crisa, Teodoro Juvenal Bispo Neto, conta que muitos trabalhadores tiveram algum problema de sa\u00fade ligado ao acidente radiol\u00f3gico, mas que nem todos s\u00e3o reconhecidos como v\u00edtimas.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, somos encostados. Tivemos contato com o c\u00e9sio, mas hoje estamos no grupo tr\u00eas para tratamento. Brigamos para receber uma pens\u00e3o, n\u00e3o temos acesso a nenhuma assist\u00eancia. Uns os dentes ca\u00edram, outros est\u00e3o cegos. Tem gente com verruga nascendo dentro do olho. N\u00f3s nunca quisemos ser her\u00f3is de descontamina\u00e7\u00e3o de Goi\u00e2nia&#8221;, contou.<\/p>\n<p>Apenas quatro mortes s\u00e3o atribu\u00eddas ao acidente com o c\u00e9sio-137. &#8220;Apesar disso, tem mais de mil pessoas que recebem alguma indeniza\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e1rea financeira, eles admitem que as pessoas foram v\u00edtimas, mas para o lado do tratamento, n\u00e3o admitem. Eu perdi a palma da m\u00e3o, e parte do indicador direito e esquerdo. Eu tive que tratar oito doen\u00e7as distintas, mas nenhuma delas era associada ao acidente oficialmente. At\u00e9 2010 a gente recebia medica\u00e7\u00e3o para tratar algumas doen\u00e7as, mas, desde ent\u00e3o, estamos sem receber esse tratamento&#8221;, contou Odesson.<\/p>\n<p>A Secretaria Estadual de Sa\u00fade estima que cerca de 1.200 pessoas s\u00e3o atendidas pelo Centro de Assist\u00eancia aos Radioacidentados (Cara), recebendo atendimento em v\u00e1rias especialidades m\u00e9dicas e assist\u00eancia psicol\u00f3gica. Tamb\u00e9m s\u00e3o realizadas visitas domiciliares \u00e0s v\u00edtimas e monitoramento dos efeitos tardios da radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao todo, segundo a secretaria, 530 pessoas recebem pens\u00f5es estaduais no valor de cerca de R$ 750 cada, 250 recebem benef\u00edcios federais e 130 acumulam as duas. O governo tem um estudo para aumentar o valor, mas n\u00e3o h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o de qual a nova quantia e nem quando ela seria concedida.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores do Crisa, o governo os reconhece como \u201ctrabalhadores de \u00e1reas j\u00e1 descontaminadas\u201d, enquadrando-os no terceiro grupo de assistidos. Entretanto, segundo a secretaria, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a no tratamento recebido por eles em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas dos outros dois grupos.<\/p>\n<p>Sobre a medica\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o explicou que n\u00e3o deixou de disponibilizar nenhum medicamento da farm\u00e1cia b\u00e1sica e outros de alto custo atrav\u00e9s da Central de Medicamentos Juarez Barbosa. Entretanto, qualquer outra demanda deve passar por um processo de judicializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo informa ainda que est\u00e1 em fase de finaliza\u00e7\u00e3o um painel em mem\u00f3ria \u00e0s v\u00edtimas do c\u00e9sio-137 que ser\u00e1 entregue na inaugura\u00e7\u00e3o do Hospital do Servidor P\u00fablico de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>(Fonte: G1)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 30 anos, v\u00edtimas revisitaram locais ligados ao acidente radiol\u00f3gico com o c\u00e9sio-137 e relembraram os momentos traum\u00e1ticos que viveram em setembro de 1987. Muitos carregam at\u00e9 hoje sequelas, tanto f\u00edsicas quanto psicol\u00f3gicas, ap\u00f3s terem contato direta ou indiretamente com o material. 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