{"id":2987,"date":"2015-02-27T16:51:38","date_gmt":"2015-02-27T19:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2015\/02\/27\/casos-de-lerdort-ainda-preocupam\/"},"modified":"2015-02-27T16:51:38","modified_gmt":"2015-02-27T19:51:38","slug":"casos-de-lerdort-ainda-preocupam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2015\/02\/27\/casos-de-lerdort-ainda-preocupam\/","title":{"rendered":"Casos de LER\/Dort ainda preocupam"},"content":{"rendered":"<p><em>Data: 27 de fevereiro<\/em><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Ap\u00f3s 11 anos desossando coxas, Valdirene Gon\u00e7alves da Silva n\u00e3o aguentou mais. Sempre muito dedicada a sua atividade, o processo de adoecimento foi evoluindo sem que ela pudesse modificar o seu ritmo de trabalho e o n\u00famero de horas dedicado por dia \u00e0 tarefa em que se especializara. Canhota, sofria com uma rotina de dor e c\u00e3ibras, mas, na empresa, n\u00e3o acreditavam em sua dor. Por muito tempo, ela tentou super\u00e1-la e manter o ritmo intenso de trabalho. Toda manh\u00e3 seu marido puxava e esticava seu bra\u00e7o, depois abria sua m\u00e3o para que ela pudesse fazer seu trabalho no frigor\u00edfico, at\u00e9 que chegou o dia em que n\u00e3o conseguiu abrir mais os dedos: os nervos de seu bra\u00e7o esquerdo atrofiaram. V\u00edtima de LER\/Dort (Les\u00f5es por esfor\u00e7os repetitivos \/ Dist\u00farbios osteomusculares relacionados ao trabalho), seu caso se tornou conhecido ao ser apresentado no document\u00e1rio Carne e Osso.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Neste 28 de fevereiro, Dia Internacional de Preven\u00e7\u00e3o \u00e0s Les\u00f5es por Esfor\u00e7os Repetitivos, a hist\u00f3ria de Valdirene serve mais uma vez de alerta sobre esse adoecimento ligado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, com seu ritmo intenso, sem pausas, com metas abusivas. Infelizmente n\u00e3o se trata de um caso isolado. A Pesquisa Nacional de Sa\u00fade 2013, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), aponta que 2,4% dos entrevistados referiram diagn\u00f3stico m\u00e9dico de LER\/Dort. Considerando o universo de 146,3 milh\u00f5es de pessoas com mais de 18 anos representado pela pesquisa, estima-se que cerca de 3,5 milh\u00f5es de pessoas t\u00eam ou j\u00e1 tiveram essa doen\u00e7a diagnosticada.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Segundo dados da Previd\u00eancia Social, em 2006, somente 19.956 benef\u00edcios acident\u00e1rios foram concedidos para pessoas com doen\u00e7as do sistema osteomolecular e do tecido conjuntivo. Em 2007, esse n\u00famero subiu para 98.415, passando para 117.353 em 2008. O aumento ocorreu devido \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio epidemiol\u00f3gico para a caracteriza\u00e7\u00e3o do nexo causal entre a doen\u00e7a e o trabalho, o chamado Nexo T\u00e9cnico Epidemiol\u00f3gico \u2013 NTEP.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cCom a implementa\u00e7\u00e3o do NTEP, as estat\u00edsticas da Previd\u00eancia Social retrataram a situa\u00e7\u00e3o sobre a qual se tinha conhecimento, mas n\u00e3o se tinha registro em n\u00edvel nacional. Houve um grande aumento do reconhecimento do car\u00e1ter ocupacional para determinados tipos de adoecimento, entre os quais aqueles relacionados \u00e0s LER\/Dort, o que mostra a import\u00e2ncia do conceito epidemiol\u00f3gico para o estabelecimento do nexo causal entre uma doen\u00e7a e o trabalho\u201d, explica a pesquisadora da Fundacentro, Maria Maeno.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A partir de 2009, observa-se uma tend\u00eancia de queda na concess\u00e3o de benef\u00edcios acident\u00e1rios ligados \u00e0s doen\u00e7as do sistema osteomolecular e do tecido conjuntivo. Em 2013, foram concedidos 76.400. Na avalia\u00e7\u00e3o da profissional, essa tend\u00eancia merece uma investiga\u00e7\u00e3o. \u201cDevemos estudar se houve queda real de ocorr\u00eancia das LER\/Dort no pa\u00eds, diminui\u00e7\u00e3o do acesso dos segurados aos benef\u00edcios ou um aumento da subnotifica\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter ocupacional. Em alguns ramos econ\u00f4micos, como no caso dos bancos, embora as LER\/Dort sejam ainda importantes, houve diminui\u00e7\u00e3o de postos de trabalho com exig\u00eancias de movimentos repetitivos, concomitantemente ao aumento da press\u00e3o por alcance de metas crescentes, o que resulta em aumento de outras manifesta\u00e7\u00f5es de adoecimento, como os transtornos ps\u00edquicos\u201d, completa Maeno.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>J\u00e1 os dados de acidentes do trabalho do Anu\u00e1rio Estat\u00edstico da Previd\u00eancia Social de 2013 apontam a ocorr\u00eancia de 101.814 casos de les\u00f5es e doen\u00e7as do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo. Esses dados incluem acidentes sem CAT (Comunicado de Acidente de Trabalho) registrada e utiliza os c\u00f3digos da Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as \u2013 CID.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o a ser avaliada \u00e9 o impacto da Medida Provis\u00f3ria 664 sobre os pacientes com LER\/Dort. O trabalhador passa a ter direito ao aux\u00edlio doen\u00e7a a partir do trig\u00e9simo primeiro dia do afastamento da atividade. Os primeiros trinta dias ser\u00e3o pagos pela empresa. \u201cTrabalhadores com doen\u00e7as cr\u00f4nicas que, nos momentos de crise precisam de 20, 25 dias de afastamento n\u00e3o ser\u00e3o computados pela Previd\u00eancia Social\u201d, avalia a m\u00e9dica.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Assim elas n\u00e3o seriam inclu\u00eddas como doen\u00e7as ocupacionais pelo INSS, o que pode levar \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do FAP (Fator Acident\u00e1rio de Preven\u00e7\u00e3o) de cada empresa, \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o das al\u00edquotas do RAT (Riscos Ambientais do Trabalho) do ramo econ\u00f4mico e das a\u00e7\u00f5es regressivas contra as empresas que causam adoecimentos. \u201cTamb\u00e9m a terceiriza\u00e7\u00e3o das per\u00edcias, que poder\u00e3o ser realizadas por m\u00e9dicos contratados pelas empresas, mediante conv\u00eanio com o INSS, poder\u00e1 ser mais um elemento de contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 subnotifica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as ocupacionais, entre as quais, as LER\/Dort\u201d, finaliza a pesquisadora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Doen\u00e7a Invis\u00edvel<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Para a pesquisadora da Fundacentro, Tha\u00eds Barreira, a LER\/Dort tem sido naturalizada. Nos anos 1990, havia campanhas sindicais e uma preocupa\u00e7\u00e3o em mostrar que esse processo de adoecimento poderia ser interrompido precocemente. Os trabalhadores eram alertados para reconhecer os sintomas que afetavam, principalmente, os membros superiores (m\u00e3os, punhos, bra\u00e7os, antebra\u00e7os, ombros e coluna cervical), como fadiga muscular, altera\u00e7\u00e3o da sensibilidade, sensa\u00e7\u00e3o de peso, perda de controle de movimentos, dificuldade para encostar a ponta de um dedo em outra ponta, formigamento e dor. \u201cTemos que ter aten\u00e7\u00e3o para receber as pessoas em seus primeiros est\u00e1gios para que o adoecimento n\u00e3o se torne irrevers\u00edvel\u201d, alerta Barreira.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>J\u00e1 a tecnologista da Fundacentro Baixada Santista, Juliana Oliveira, destaca os aspectos sociais da LER\/Dort: \u201c\u00e9 uma doen\u00e7a invis\u00edvel\u201d. Doutora em sociologia pela USP, ela discute hoje, no pr\u00e9dio da Fundacentro em Santos, os problemas que os trabalhadores enfrentam devido a LER\/Dort com sindicalistas da regi\u00e3o. \u201cVamos distribuir um kit com publica\u00e7\u00f5es da Fundacentro e fazer uma discuss\u00e3o para que eles repliquem essa conscientiza\u00e7\u00e3o entre seus sindicatos e percebam a presen\u00e7a da LER\/Dort em sua categoria\u201d, explica Oliveira.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Invisibilidade e naturaliza\u00e7\u00e3o andam lado a lado. \u201cBanalizar a LER\/Dort \u00e9 muito grave. Est\u00e1 se naturalizando a doen\u00e7a como se a sociedade, trabalhadores e empresas nada podem fazer para se contrapor intervindo nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho adoecedoras\u201d, critica Tha\u00eds Barreira, que \u00e9 fisioterapeuta, mestre em Ergonomia e doutora em Pol\u00edticas P\u00fablicas em SST.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Esse tipo de adoecimento est\u00e1 ligado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es f\u00edsico-materiais do posto de trabalho. \u201cMas se as melhorias materiais em instrumentos, ferramentas e postos de trabalho s\u00e3o insuficientes, ainda n\u00e3o vemos qualquer mudan\u00e7a na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, na press\u00e3o por metas de produ\u00e7\u00e3o que acarretam sobrecarga muscular, fator do trabalho abordado na revis\u00e3o da NR 17 em 1990, e que perpetua a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, completa a pesquisadora.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>H\u00e1 assim uma dissemina\u00e7\u00e3o em todas as categorias que t\u00eam um trabalho manual intensivo, abrangendo trabalhadores do com\u00e9rcio, de telemarketing, de frigor\u00edficos, da ind\u00fastria da alimenta\u00e7\u00e3o, de cal\u00e7ados, banc\u00e1rios, jornalistas, entre outros. Mesmo trabalhadores aut\u00f4nomos que trabalham em casa e intensificam o ritmo para receber uma remunera\u00e7\u00e3o melhor s\u00e3o atingidos, desde jornalista freelancer \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o em ind\u00fastrias de cal\u00e7ado e vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cA pesquisa t\u00e9cnica j\u00e1 demonstrou as fontes que geram o problema. \u00e9 necess\u00e1rio voltar-se para o aspecto pol\u00edtico e mobilizar os atores sociais para uma possibilidade real de preven\u00e7\u00e3o\u201d, acredita Tha\u00eds Barreira, que participou do processo de constru\u00e7\u00e3o da NR-36, norma regulamentadora voltada para os trabalhadores de frigor\u00edficos. A NR abordou quest\u00f5es como a necessidade de pausas no trabalho. Outra norma refer\u00eancia para LER\/Dort \u00e9 a NR 17 sobre ergonomia e seus anexos I (operadores de checkout) e II (teleatendimento e telemarketing).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u201cA forma de organiza\u00e7\u00e3o tem que ser considerada, mas tem ficado evidente que isso \u00e9 letra morta. O problema ainda existe em propor\u00e7\u00f5es exageradas. As pessoas se sentem impotentes para mudar situa\u00e7\u00f5es adoecedoras\u201d, conclui Barreira.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Veja mais conte\u00fados sobre LER\/Dort no <a href=\"http:\/\/www.fundacentro.gov.br\/noticias\/detalhe-da-noticia\/2015\/2\/casos-de-lerdort-ainda-preocupam\">site<\/a> da Fundacentro<\/p>\n<p><\/p>\n<p><em>Fonte: Fundacentro<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia Internacional de Preven\u00e7\u00e3o \u00e0s Les\u00f5es por Esfor\u00e7os Repetitivos em 28 de fevereiro serve de alerta sobre adoecimento<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2987"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2987"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2987\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}