{"id":1751,"date":"2013-06-14T10:27:58","date_gmt":"2013-06-14T13:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2013\/06\/14\/especialistas-internacionais-debatem-perigos-do-amianto\/"},"modified":"2013-06-14T10:27:58","modified_gmt":"2013-06-14T13:27:58","slug":"especialistas-internacionais-debatem-perigos-do-amianto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2013\/06\/14\/especialistas-internacionais-debatem-perigos-do-amianto\/","title":{"rendered":"Especialistas internacionais debatem perigos do amianto"},"content":{"rendered":"<p><em>Data: 14 de junho<\/em><\/p>\n<p>Encontro internacional reuniu nos dias 11 e 12 de junho representantes de munic\u00edpios de todo o Estado, membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual e do Trabalho e interessados nas causas ambiental e de sa\u00fade para a discuss\u00e3o de problemas ligados ao uso de agrot\u00f3xicos e do amianto e tamb\u00e9m de solu\u00e7\u00f5es para o fomento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos org\u00e2nicos e \u00e0 agroecologia.<\/p>\n<p>O evento promovido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual, Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e Secretaria de Estado do Trabalho e Economia Solid\u00e1ria foi realizado no Centro de Conven\u00e7\u00f5es de Curitiba, com a participa\u00e7\u00e3o de especialistas e pesquisadores do Brasil, Argentina e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>No primeiro dia, a t\u00f4nica do evento foi o problema da utiliza\u00e7\u00e3o do amianto, fibra mineral, usada principalmente na constru\u00e7\u00e3o civil. O amianto j\u00e1 foi abolido em 55 pa\u00edses, mas ainda \u00e9 usado em muitas na\u00e7\u00f5es (em 2007 foram consumidos mais de 2 milh\u00f5es de toneladas do produto), incluindo o Brasil, onde s\u00e3o produzidos quase 3 mil produtos industriais, principalmente telhas, caixas d\u00b4\u00e1gua, pastilhas e lonas para freio. O pa\u00eds \u00e9 um dos cinco maiores produtores, consumidores e exportadores de amianto no mundo, representando 5% do consumo. A China \u00e9 o maior consumidor (30%), seguido por \u00edndia (15%), R\u00fassia (13%) e, empatado, Cazaquist\u00e3o (5%).<\/p>\n<p>A \u00fanica mina de amianto hoje localiza-se no Brasil, em Goi\u00e1s, a mina de Cana Brava, controlada pela SAMA Minera\u00e7\u00e3o de Amianto, do grupo Eternit.<\/p>\n<p>Os expositores falaram sobre os preju\u00edzos que a exposi\u00e7\u00e3o ao amianto ou asbesto traz \u00e0 sa\u00fade, causando doen\u00e7as como a asbestose, o c\u00e2ncer de pulm\u00e3o e o mesotelioma, tipo de c\u00e2ncer que ocorre nas camadas mesoteliais da pleura, peric\u00e1rdio, perit\u00f4nio e da membrana serosa do test\u00edculo, doen\u00e7as que podem levar at\u00e9 45 anos para se manifestar.<\/p>\n<p>&#8220;O amianto tem que ser extirpado da face da terra, quanto mais tempo demorarmos para abolir o amianto, mais gente vai morrer por causa dele&#8221;,afirma o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Expostos ao Amianto (ABREA), Eliezer Jo\u00e3o de Souza. &#8220;N\u00f3s j\u00e1 fomos contaminados; \u00e9 um caminho sem volta, porque o amianto n\u00e3o sai do nosso corpo; a luta hoje \u00e9 preventiva, para que a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o morra contaminada&#8221;,diz Souza, que trabalhou durante 13 anos em empresa que utilizava a fibra mineral.<\/p>\n<p><strong>Condena\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>Magistrados de Turim (promotores e ju\u00edzes na It\u00e1lia pertencem \u00e0 mesma carreira), Gianfranco Colace e Sara Panelli, contaram a experi\u00eancia do banimento do amianto na It\u00e1lia e do processo que levou \u00e0 hist\u00f3rica condena\u00e7\u00e3o de dois dos maiores magnatas do amianto, o belga Louis de Cartier de Marchienne e o su\u00ed\u00e7o Stephan Schmidheiny, ex-propriet\u00e1rios da Eternit.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 3 de junho, Schmidheiny &#8211; que j\u00e1 havia sido condenado a 16 anos de reclus\u00e3o em fevereiro do ano passado, mas apelou da decis\u00e3o &#8211; foi julgado novamente e teve sua pena aumentada para 18 anos de pris\u00e3o, por ter provocado a morte de quase 3 mil pessoas, empregadas ou vizinhas da empresa que utilizava fibra de amianto na produ\u00e7\u00e3o de materiais no pa\u00eds. O su\u00ed\u00e7o, que ainda ter\u00e1 de pagar indeniza\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias \u00e0s v\u00edtimas, \u00e0 cidade de Casale Monferrato e \u00e0 regi\u00e3o de Piemonte, foi um importante acionista da Eternit It\u00e1lia de 1976 a 1986, ao lado do bar\u00e3o belga Marchienne, acion\u00e1rio e administrador da sede nos anos 70. O Tribunal de Apela\u00e7\u00f5es de Turim abandonou o processo contra o belga, que morreu em maio.<\/p>\n<p>Schmidheiny foi considerado culpado por &#8220;cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria e ambiental permanente&#8221; e por ter infringido as regras de seguran\u00e7a do trabalho nas usinas de fabrica\u00e7\u00e3o de produtos \u00e0 base de amianto-cimento, como canos e placas, nas instala\u00e7\u00f5es de Casale Monferrato, Bagnoli e Rubiera, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com o Brasil, a senten\u00e7a da corte de apela\u00e7\u00e3o italiana assemelha-se ao ac\u00f3rd\u00e3o dos Tribunais de Justi\u00e7a estaduais ou dos Tribunais Regionais Federais. Assim, caber\u00e1 ainda recurso desta senten\u00e7a para a Corte de Cassa\u00e7\u00e3o italiana, o que seria similar, no Brasil, ao Superior Tribunal de Justi\u00e7a, onde n\u00e3o mais se discutir\u00e3o fatos, apenas mat\u00e9ria jur\u00eddica, se a lei foi mal ou bem interpretada.<\/p>\n<p>Gianfranco Colace e Sara Panelli, os promotores que falaram no evento em Curitiba e participaram das investiga\u00e7\u00f5es do caso at\u00e9 o julgamento contaram como se deu todo o processo investigat\u00f3rio e falaram das dificuldades que se teve at\u00e9 a obten\u00e7\u00e3o do nexo-causal, ligando as mortes de trabalhadores, familiares e pessoas da cidade \u00e0 toxidade do amianto. A f\u00e1brica de Casale Monferrato faliu em 1986, seis anos antes da proibi\u00e7\u00e3o do amianto no pa\u00eds (em 1992).<\/p>\n<p>Vendo que se multiplicavam os casos que chegavam de doen\u00e7as como o mesotelioma, asbestose e tumores de pleura, na regi\u00e3o, os promotores procuraram reconstituir as formas e o ambiente de trabalho na f\u00e1brica (que j\u00e1 estava fechada). Percebeu-se que n\u00e3o havia separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica entre os setores nem equipamentos eficazes de prote\u00e7\u00e3o, que a higieniza\u00e7\u00e3o das roupas era feita pelos trabalhadores e suas esposas, que lavavam as roupas cheias de p\u00f3 em suas casas, sem qualquer prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foram obtidos documentos que comprovavam que os empres\u00e1rios sabiam que o amianto era cancer\u00edgeno (a empresa tinha c\u00f3pia de uma edi\u00e7\u00e3o do jornal The New York Times, de 1973, que publicava conte\u00fado de confer\u00eancia realizada em 64, com informa\u00e7\u00f5es de que a fibra era carcinog\u00eanica, inclusive com foto de um pulm\u00e3o com mesotelioma).<\/p>\n<p>Foi descoberto ainda, que em 1976 havia documentos com estrat\u00e9gias de abordagem do tema perante p\u00fablicos como jornalistas e sindicatos, que vinham da sede su\u00ed\u00e7a da Eternit. Al\u00e9m disso e de outros muitos documentos encontrados, solicitou-se estudo epidemiol\u00f3gico que confirmou que, em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es normais, havia de 30 a 70 vezes mais ocorr\u00eancia de doen\u00e7as nas pessoas que moravam a at\u00e9 dez quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da f\u00e1brica e que os residentes a at\u00e9 500 m adoeciam tanto quanto os trabalhadores.<\/p>\n<p>Todas essas informa\u00e7\u00f5es levaram o Minist\u00e9rio P\u00fablico italiano a provar o nexo de causa, podendo formalizar a acusa\u00e7\u00e3o que acabou condenando os empres\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Dados que impressionam<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto de Figueiredo Caldas, que mediou as discuss\u00f5es da mesa,&#8221;estamos diante de uma epidemia&#8221;. &#8220;Os dados mostram que 100 mil pessoas por ano morrem em decorr\u00eancia do contato de algum tipo com o amianto, muito mais pessoas contraem doen\u00e7as, mas 100 mil morrem por ano. \u00e9 uma calamidade universal&#8221;,diz.<\/p>\n<p>Ele afirma que mesmo do ponto de vista econ\u00f4mico, a explora\u00e7\u00e3o do amianto n\u00e3o vale a pena. &#8220;Calcula-se que apenas para se acondicionar os dejetos da explora\u00e7\u00e3o do amianto se gasta mais do que todo o ganho na explora\u00e7\u00e3o dele. Isso sem considerar os gastos que o Estado ter\u00e1 com a sa\u00fade p\u00fablica, para tratar dos doentes, e com a previd\u00eancia social. N\u00f3s tivemos a oportunidade de ver na audi\u00eancia p\u00fablica realizada perante o Supremo Tribunal Federal que do ponto de vista econ\u00f4mico tamb\u00e9m \u00e9 catastr\u00f3fico para o Estado e para a sociedade&#8221;.<\/p>\n<p>Roberto de Figueiredo Caldas tamb\u00e9m alertou para alguns mitos que se tenta difundir. Um deles, o de que o amianto usado no Brasil seria diferente e menos perigoso do que os utilizados em outros pa\u00edses. &#8220;Isto \u00e9 uma fal\u00e1cia. O amianto brasileiro, que \u00e9 chamado de crisotila ou amianto branco, \u00e9 o mesmo utilizado em 98% das vezes no mundo &#8211; apenas 2% s\u00e3o os outros tipos de amianto &#8211; e \u00e9 considerado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade como todos os outros, igualmente cancer\u00edgeno&#8221;,disse.<\/p>\n<p>O juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos ressaltou ainda que a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), por meio de resolu\u00e7\u00e3o, defende o banimento do amianto, a troca quando outro elemento puder ser utilizado. &#8220;\u00e9 o caso brasileiro, j\u00e1 que temos substituto para o amianto, com pre\u00e7os id\u00eanticos&#8221;. Pontuou tamb\u00e9m que o Conama reconheceu, j\u00e1 em 2004, que de acordo com os crit\u00e9rios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) n\u00e3o h\u00e1 limites de exposi\u00e7\u00e3o ao amianto. &#8220;O impacto n\u00e3o \u00e9 apenas para os trabalhadores e para a sociedade que convive naquele momento. O amianto degrada o meio ambiente e perpassa gera\u00e7\u00f5es. O res\u00edduo, o p\u00f3, continua resistente ao longo do tempo e levado pelo vento continua adoecendo e matando&#8221;.<\/p>\n<p>Ele alertou ainda para o fato de que a Corte Europeia de Direitos Humanos j\u00e1 teve oportunidade por duas vezes de examinar casos de v\u00edtimas de amianto, um caso contra a Alemanha e outro contra a Turquia. &#8220;A Corte condenou os respectivos estados a indenizar, porque o amianto \u00e9 de fato absolutamente nocivo&#8221;. &#8220;Avan\u00e7o apenas para dizer que a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, nos dispositivos que protege a vida, a sa\u00fade, a integridade, garante a interpreta\u00e7\u00e3o de que o amianto n\u00e3o pode seguir sendo usado no nosso pa\u00eds&#8221;,finalizou.<\/p>\n<p><strong>Legisla\u00e7\u00e3o no Paran\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>Desde 2011, est\u00e1 em discuss\u00e3o na Assembleia Legislativa do Paran\u00e1 o projeto de lei n\u00ba 76\/2011, que prev\u00ea a proibi\u00e7\u00e3o do uso e fabrica\u00e7\u00e3o de amianto no Estado. A proposta deveria tramitar em regime de urg\u00eancia, aprovado em fevereiro de 2012, mas est\u00e1 sobrestado na Diretoria Legislativa desde mar\u00e7o daquele ano, aguardando decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade de lei estadual de outro estado sobre o tema.<\/p>\n<p><strong>Lei n\u00ba 14.172<\/strong><\/p>\n<p>Lei municipal de Curitiba, publicada em 11 de dezembro do ano passado (Lei n\u00ba 14.172) estabelece a proibi\u00e7\u00e3o do uso de &#8220;produtos, artefatos ou materiais que contenham quaisquer tipos de amianto ou asbesto na sua composi\u00e7\u00e3o, em especial nas obras de constru\u00e7\u00e3o civil, tanto p\u00fablicas quanto privadas, incluindo as reformas&#8221; no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Fonte: MP-PR<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agravos \u00e0 sa\u00fade provocados pela fibra tamb\u00e9m foram discutidos durante o 15\u00ba Congresso Nacional da Anamt<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1751"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}