{"id":1496,"date":"2013-02-08T10:49:36","date_gmt":"2013-02-08T12:49:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2013\/02\/08\/brasil-nao-tem-antidoto-para-cianeto\/"},"modified":"2013-02-08T10:49:36","modified_gmt":"2013-02-08T12:49:36","slug":"brasil-nao-tem-antidoto-para-cianeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/2013\/02\/08\/brasil-nao-tem-antidoto-para-cianeto\/","title":{"rendered":"Brasil n\u00e3o tem ant\u00eddoto para cianeto"},"content":{"rendered":"<p><em>Data: 8 de fevereiro<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo\/SP &#8211; A trag\u00e9dia de Santa Maria (RS) trouxe \u00e0 tona uma s\u00e9rie de quest\u00f5es sobre a seguran\u00e7a dos estabelecimentos e tamb\u00e9m o atendimento a v\u00edtimas de grandes inc\u00eandios. Uma delas \u00e9 por que foi preciso trazer dos Estados Unidos uma subst\u00e2ncia t\u00e3o simples &#8211; uma vitamina B injet\u00e1vel &#8211; para atender os pacientes que, segundo exames, foram intoxicados com cianeto?<\/p>\n<p>&#8220;\u00e9 descaso e ignor\u00e2ncia&#8221;,resume o toxicologista Anthony Wong, diretor do Ceatox (Centro de Assist\u00eancia Toxicol\u00f3gica do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo). Segundo ele, \u00e9 inadmiss\u00edvel que o pa\u00eds n\u00e3o tenha a subst\u00e2ncia e que seu uso n\u00e3o seja difundido entre m\u00e9dicos e socorristas, como acontece em outras partes do mundo.<\/p>\n<p>A hidroxicobalamina, que faz parte do complexo B, \u00e9 usada em altas concentra\u00e7\u00f5es como ant\u00eddoto para o cianeto. O g\u00e1s, o mesmo que j\u00e1 foi usado no exterm\u00ednio de judeus nos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, \u00e9 subproduto da queima de diversos componentes usados na ind\u00fastria, como o pl\u00e1stico, o acr\u00edlico e a espuma de poliuretano. Segundo os peritos que investigam o inc\u00eandio em Santa Maria, essa \u00faltima foi usada no isolamento ac\u00fastico da boate Kiss.<\/p>\n<p>\u00e9 de estranhar que existam tantos produtos no mercado capazes de exalar um g\u00e1s letal ao pegar fogo &#8211; da f\u00f3rmica usada em resid\u00eancias aos colch\u00f5es de espuma mais baratos. Mas o cianeto tamb\u00e9m pode ser gerado ao se queimar seda, por exemplo. E a subst\u00e2ncia (n\u00e3o o g\u00e1s) tamb\u00e9m \u00e9 encontrada naturalmente em caro\u00e7os de p\u00eassego e sementes de ma\u00e7\u00e3. &#8220;Uma das principais formas de intoxica\u00e7\u00e3o por cianeto no Brasil \u00e9 pelo consumo de mandioca brava&#8221;,comenta Wong, que j\u00e1 atendeu dezenas de casos desse tipo.<\/p>\n<p>Capaz de matar em poucos minutos, o cianeto bloqueia a cadeia respirat\u00f3ria das c\u00e9lulas, impedindo que o oxig\u00eanio chegue aos \u00f3rg\u00e3os e tecidos. Quando usada logo ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o, a hidroxicobalamina salva vidas. &#8220;O efeito \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pido que parece at\u00e9 milagroso&#8221;,conta Wong. Mas isso n\u00e3o \u00e9 algo que os m\u00e9dicos aprendem na escola: &#8220;S\u00e3o poucas as faculdades que oferecem curso de toxicologia e, nas que t\u00eam, a mat\u00e9ria \u00e9 opcional&#8221;.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, a hidroxicobalamina \u00e9 utilizada h\u00e1 decadas pelos socorristas em casos de inc\u00eandio, sem que seja necess\u00e1rio comprovar a intoxica\u00e7\u00e3o por cianeto com exames, que demoram para ser conclu\u00eddos. Como os benef\u00edcios de administrar a terapia logo superam, e muito, os efeitos colaterais, os socorristas usam o ant\u00eddoto sem pestanejar.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, a medida tamb\u00e9m j\u00e1 faz parte do protocolo de atendimento, segundo o m\u00e9dico Cristiano Franke, presidente regional da Sociedade de Terapia Intensiva do Rio Grande do Sul, que fez um curso desenvolvido pela Sociedade Norte-Americana de Terapia Intensiva voltado para o atendimento de v\u00edtimas de desastres e cat\u00e1strofes.<\/p>\n<p>O \u00fanico laborat\u00f3rio que fabricava a hidroxicobalamina no Brasil abandonou a produ\u00e7\u00e3o h\u00e1 alguns anos por concluir que o investimento n\u00e3o compensava. Apesar da simplicidade da mat\u00e9ria-prima, trata-se de um kit que precisa ser mantido em temperatura adequada e tem de ser preparado na hora.<\/p>\n<p>Alguns especialistas ouvidos pelo UOL ponderam que os casos de intoxica\u00e7\u00e3o por cianeto n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o frequentes no Brasil. Na Europa, por exemplo, o veneno \u00e9 muito utilizado em tentativas de suic\u00eddio, o que n\u00e3o acontece aqui. E nos EUA existe uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com armas qu\u00edmicas &#8211; o g\u00e1s \u00e9 uma delas. Mas, para Wong, o risco de exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo, n\u00e3o s\u00f3 pelo cultivo da mandioca, mas tamb\u00e9m pela frequ\u00eancia de acidentes em ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Banco de ant\u00eddotos<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9dico Carlos Augusto da Silva, do Centro de Informa\u00e7\u00e3o Toxicol\u00f3gica (CIT) de Porto Alegre, a falta de interesse comercial na produ\u00e7\u00e3o de hidroxicobalamina n\u00e3o justifica sua falta no pa\u00eds. &#8220;Na Fran\u00e7a, \u00e9 o governo quem fabrica a subst\u00e2ncia&#8221;,diz o especialista. De acordo com Franke, nos EUA a realidade \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>Silva aponta a necessidade de um banco de ant\u00eddotos, at\u00e9 porque faltam no pa\u00eds v\u00e1rias outras subst\u00e2ncias usadas para tratar casos espec\u00edficos de intoxica\u00e7\u00e3o. &#8220;Essa \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o antiga nossa&#8221;,enfatiza o m\u00e9dico, que j\u00e1 presidiu a Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox).<\/p>\n<p>O toxicologista S\u00e9rgio Graff, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), concorda com a necessidade do banco, mas lembra que o pa\u00eds \u00e9 grande e algumas regi\u00f5es seriam prejudicadas pela demora para transportar o ant\u00eddoto. &#8220;Se a intoxica\u00e7\u00e3o ocorrer em uma fazenda ou em outro local de dif\u00edcil acesso, por exemplo, levar\u00e1 horas para a subst\u00e2ncia chegar ao destino&#8221;,comenta.<\/p>\n<p>Para os especialistas, o esperado \u00e9 que a trag\u00e9dia de Santa Maria fa\u00e7a o governo brasileiro buscar uma solu\u00e7\u00e3o para essa defici\u00eancia. Questionado pelo UOL, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que j\u00e1 discute a aprova\u00e7\u00e3o da hidroxicobalamina na Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) e o protocolo de uso do medicamento no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A demora na administra\u00e7\u00e3o da hidroxicobalamina nas v\u00edtimas de Santa Maria foi alvo de cr\u00edticas por parte de muitos especialistas ouvidos pela imprensa nos \u00faltimos dias &#8211; os kits chegaram no s\u00e1bado (2), uma semana ap\u00f3s o inc\u00eandio. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade explica que a decis\u00e3o de submeter os pacientes ao exame que detecta a exposi\u00e7\u00e3o ao cianeto coube a cada hospital, e dependeu da condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e evolu\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Baldisserotto, diretor cl\u00ednico do Hospital S\u00e3o Francisco de Assis e m\u00e9dico intensivista do Hospital Universit\u00e1rio, em Santa Maria, conta que o exame n\u00e3o \u00e9 feito em Santa Maria e foi preciso acionar um laborat\u00f3rio de Porto Alegre, por isso a detec\u00e7\u00e3o ocorreu apenas 80 horas ap\u00f3s o incidente. Ele diz que nem todos os pacientes internados apresentaram sintomas t\u00edpicos de intoxica\u00e7\u00e3o por cianeto. Mas a maior parte tinha n\u00edveis elevados do veneno no sangue &#8211; n\u00e3o em quantidades letais, mas acima do normal.<\/p>\n<p>Os t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e os m\u00e9dicos envolvidos no atendimento sabiam que n\u00e3o havia garantia de sucesso. Tanto que apenas 30 pacientes receberam a hidroxicobalamina. &#8220;Ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel avaliar se houve alguma melhora especificamente por causa do tratamento&#8221;,informa Baldisserotto. &#8220;Mas \u00e9 preciso deixar claro que n\u00f3s sab\u00edamos que o uso do ant\u00eddoto era tardio. Mesmo assim optamos por usar, como qualquer pessoa de bom senso faria&#8221;,frisa o m\u00e9dico, que diz n\u00e3o ter queixa alguma em rela\u00e7\u00e3o ao suporte recebido pelo governo.<\/p>\n<p>Os especialistas tamb\u00e9m refor\u00e7am que o cianeto n\u00e3o pode ser considerado o \u00fanico vil\u00e3o do caso de Santa Maria. &#8220;Todo inc\u00eandio gera um coquetel de gases t\u00f3xicos&#8221;,esclarece o m\u00e9dico do Centro de Informa\u00e7\u00e3o Toxicol\u00f3gica (CIT) de Porto Alegre. O mon\u00f3xido de carbono produzido pela queima tamb\u00e9m pode levar \u00e0 morte em poucos minutos, j\u00e1 que se liga facilmente \u00e0 hemoglobina, estrutura do sangue respons\u00e1vel por levar o oxig\u00eanio para o corpo inteiro. Al\u00e9m disso, produtos queimados podem gerar am\u00f4nia e acrole\u00edna, entre outros compostos de alta toxicidade.<\/p>\n<p>Treino para cat\u00e1strofes<\/p>\n<p>Garantir os primeiros socorros, providenciar leitos e ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica para todos os pacientes em uma cidade pequena \u00e9 um desafio at\u00e9 para pa\u00edses desenvolvidos. Mas a verdade \u00e9 que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 preparado para agir em trag\u00e9dias de grandes propor\u00e7\u00f5es. &#8220;Uma coisa \u00e9 atender tr\u00eas ou quatro queimados; j\u00e1 atender 100 ao mesmo tempo requer um preparo espec\u00edfico&#8221;,ressalta o m\u00e9dico intensivista Ricardo Lima, diretor da Associa\u00e7\u00e3o de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).<\/p>\n<p>A Amib espera implantar, aqui, o curso americano de cat\u00e1strofe e desastres, at\u00e9 porque o preparo seria importante para um pa\u00eds prestes a sediar a Copa do Mundo. Para viabilizar a iniciativa em n\u00edvel nacional, no entanto, a associa\u00e7\u00e3o espera uma parceria com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p><em>Fonte: Revista Prote\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hidroxicobalamina, que faz parte do complexo B, \u00e9 usada em altas concentra\u00e7\u00f5es como ant\u00eddoto para o cianeto.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1496"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1496\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.anamt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}