>>>ANAMT comemora o Dia do Médico do Trabalho com relatos de profissionais

ANAMT comemora o Dia do Médico do Trabalho com relatos de profissionais

O Dia 4 de outubro é marcado pela celebração do Dia do Médico do Trabalho. Em homenagem aos profissionais dedicados à especialidade, a ANAMT publica sete relatos de colegas que participaram da campanha “Orgulho de ser médico do trabalho”, lançada pela Associação. São histórias que marcaram a carreira de cada um e que os fizeram refletir sobre orgulho que sentem de ter seguido esse caminho.

A data foi escolhida como homenagem ao nascimento do médico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714), considerado o pai da Medicina do Trabalho. Autor do livro mais antigo sobre o tema, ‘As Doenças dos Trabalhadores’, publicado em 1700, Ramazzini continua atual até os dias de hoje, na opinião dos especialistas. Formado em Medicina e Filosofia em 1659, ele foi pioneiro na associação de doenças à certas atividades laborais.

Dra. Maria Luiza A. Bastos – Mestre em Saúde Coletiva

“Há alguns anos, atendi uma senhora que solicitava licença médica para tratamento de neoplasia hematológica. Após apresentações e perguntas iniciais questionei:
“Em que a Sra. trabalha?”
Visivelmente surpresa, essa senhora me respondeu:
“É a primeira vez que me fazem essa pergunta aqui. Eu sou agente de combate a endemias.”
Na sequência, ela me explicou de forma muito calorosa como era seu trabalho ao longo de mais de 30 anos de profissão. Inclusive com alguns detalhes sobre emprego de inseticidas e outros produtos químicos.
Nada cansativo, pelo contrário, resumiu sua história ocupacional até o diagnóstico da leucemia. Entre um processo de tratamento oncológico e outro sempre voltava à atividade, pois não desejava comparecer a diversas perícias.
Quanto a minha conduta, licença concedida. No entanto, solicitei seu retorno com algumas informações direcionadas ao seu hematologista. Naquele momento final da consulta, ela disse:
“Obrigada por me ouvir”
Em resposta, eu disse: “ainda não acabou, por favor, retorne com essas solicitações, vou estudar seu caso.”
Comecei a pesquisar sobre o modus operandi dos trabalhadores das endemias, suas raízes históricas no combate à febre amarela, e o uso de inseticidas diversos. Debrucei-me sobre a literatura científica e grandes cortes internacionais com exposições semelhantes. Encontrei diversos estudos sobre associações de pesticidas com neoplasias.
No segundo momento, recebi dessa trabalhadora um parecer quanto aos questionamentos que fiz a seu médico assistente, preparei um relatório médico ocupacional e, por último, fiz uma solicitação para aposentadoria por doença relacionada ao trabalho. Quando expliquei o motivo daquele segundo encontro, ela respondeu:
“Eu sabia. Eu sempre soube que essa minha doença tinha relação com meu trabalho, mas sempre que eu tocava no assunto aqui, pediam para eu provar. Taí, a Sra. fez isso por mim.”
Eu não sei expressar em palavras meu sentimento naquele momento.
Passaram-se alguns meses e tive um doce reencontro com esta Sra., ela veio a mim e agradeceu:
“Dra, não sei se a Sra. lembra de mim” – disse
“Como posso me esquecer? Como a Sra. está?”
“Eu sou uma mulher aposentada com doença do trabalho reconhecida (pausa), muito obrigada.”
Essa história marcou minha trajetória como médica do trabalho, mudou minhas expectativas em relação à especialidade e despertou em mim um novo olhar sobre o atendimento aos trabalhadores.”

Dra. Maria Laura Jorge Piovesana – Especialista pela ANAMT/AMB

“Sou médica do trabalho há oito anos, com título de especialista pela ANAMT e AMB. Diretora Executiva Adjunta de Intercâmbio, Imprensa e Divulgação da Sociedade Paraense de Medicina do Trabalho (SPMT). Consultora, Gestora e Coordenadora de Saúde Ocupacional. Perita Judicial no Estado do Ceará. Assistente técnica pericial e palestrante. Atuando, neste momento, em regime de CLT na empresa Camargo Corrêa Infra Construções S.A. – Obra Contorno de Florianópolis.

“Iniciei fazendo atendimentos médicos ocupacionais em clínicas terceiras, vendo, em sua maioria, tratarem o ASO como documento comercial, e, não, ferramenta de saúde básica, necessária para constatar aptidão e o seguro desempenho das funções que cada indivíduo exercerá ao ser contratado.
Hoje me considero realizada profissionalmente, com um currículo de peso e cheio de aprendizado. Através da especialidade tive grandes oportunidades e pude conhecer diversas culturas, povos e crenças. Portanto, só posso e devo agradecer sempre.”

Dr. Arnaldo Leal Junior

“São várias as histórias da minha jornada de Médico do Trabalho. Trabalho numa empresa de Grau de Risco 4 – e fazemos também a parte de emergência na área. Somos treinados em ACLS / PHTLS e vários cursos.
Certo dia, fomos acionados para atendimento, bem afastado da Medicina do Trabalho. Falaram que se tratava de um empregado com mal-estar. (Aqui fazemos muitos simulados e temos apoio do Bombeiro Industrial).
Gastamos cerca de 7 a 8 minutos no deslocamento. Ao chegarmos no local, o bombeiro já fazia RCP no empregado. Assumimos o caso e já pegamos nosso DEA na ambulância.
Foram cerca de 5 choques no local, até o paciente voltar a ficar consciente; fizemos a remoção e foram mais três choques dentro da ambulância.
Ao chegarmos ao hospital, passamos o caso de morte súbita abortada e hoje o empregado está vivo e com um desfibrilador implantado no peito.”
“Outro caso, foi de um empregado mecânico de manutenção que veio fazer periódico. Ao passar pela recepção da MT já vi que ele estava um tanto pálido, na verdade meio esverdeado.
Ao atendê-lo, chegamos à conclusão que paciente estava com sangramento retal que não havia sido investigado. Na mesma hora colocamos na ambulância e foi encaminhado para o hospital. Lá, ele foi operado de um tumor no cólon direito, quase já sub ocluído.
Na ocasião, após a cirurgia, parecia bem. Embora tenha sido desligado da empresa há cerca de três anos, ainda mantém contato comigo. Hoje, está travando uma nova batalha com um novo câncer em região retal, mas não deixa de ser grato e estar pronto para lutar contra essa nova etapa na vida dele.”
Outro caso interessante foi de um soldador aqui da empresa que atendi e que apresentava muitas lesões agudas/subagudas e crônicas nos dois braços, secundária à solda.
Ao perguntar se estava usando os EPIs, a resposta foi sim.
Fiz contato na mesma hora via e-mail com a Segurança do Trabalho, que foi in loco para avaliar a questão.
Resultado, o problema estava relacionado ao uso errôneo de EPI. Os soldadores só estavam usando o avental. O blusão de raspa de couro estava sem ser usado porque segundo os soldadores o blusão é muito quente.
Na verdade, ser Médico do Trabalho é ser dedicado e estar ao lado do trabalhado, para que ele trabalhe com saúde e segurança.”

Dr. Paulo Roberto Lima – Anestesiologista. Certificação em Medicina Aeroespacial

“Sou Médico do Trabalho há apenas cinco anos, embora seja formado há 25 anos. Iniciei minha carreira nesta especialidade com o intuito de ter uma visão holística de todo o corpo de funcionários que estivesse sob minha responsabilidade, independente da empresa para a qual fosse contratado. Ou seja, deixaria de pensar e atuar apenas com questões ocupacionais.
Hoje, como Médico do Trabalho de uma empresa de Transporte Urbano de São Paulo, consigo colocar em prática esta forma de atuar. Cada exame médico é feito com exame clínico conforme a semiologia/propedêutica que aprendi em minha Faculdade. Independente, se exame ocupacional ou queixa clínica. Cada exame já é caracterizado por um período mínimo de 15 minutos.
Aboli a realização de campanha anual de periódicos ou exames em massa, porque isto levaria à possibilidade de situações clínicas de importância serem deixadas de lado ou não investigadas.
O que mais me impactou foi um exame, no início de minha carreira como médico do trabalho, quando, em exame periódico, atendi uma funcionária que não era exposta a nenhum risco ocupacional. Ao examiná-la, realizei a palpação da região cervical e consequentemente da glândula Tireóide. Notei um aumento de volume e provável nódulo. Conversei com ela, expliquei e solicitei exames. De posse dos resultados, encaminhei a paciente a um colega cirurgião de cabeça e pescoço.
Após três meses, a funcionária retornou ao ambulatório e pediu para conversar comigo. Ela me procurou para agradecer e informar que havia sido submetida a Cirurgia de Tireoidectomia Total com Esvaziamento Cervical Bilateral. O diagnóstico foi de Carcinoma Papilífero da Tireóide.
Ela não sabia e nunca havia sido examinada de forma específica.
Isto demonstrou que a minha decisão na forma de atuação estava correta e deveria continuar. Demonstrou que o Médico do Trabalho é muito mais do que questões e ações ocupacionais. É muito mais do que verificação e diminuição do Absenteísmo. É muito mais do que verificação de projetos, programas ou cronogramas ocupacionais. É, também, ser um generalista, se possível, um médico com uma visão holística. Somos, sim, Médicos Especialistas e devemos prezar pela qualidade e visão completa do ser humano, trabalhador e, por que não, paciente?!”

Dr. Carlos Eduardo de Andrade Bezerra

“Trabalho com saúde do trabalhador há 23 anos, e sou médico do trabalho há 21 anos, professor universitário há cerca de 14 anos e professor da pós-graduação de medicina do trabalho da Unoeste de Presidente Prudente (SP). Dou aula para os alunos do 11º e 12º termo de medicina da Unoeste. Quando eles me acompanham no SESMT da Prefeitura Municipal de Presidente Prudente, muitos chegam sem saber muito ao certo o que faz um médico do trabalho. Durante os atendimentos no ambulatório, realizam as consultas ocupacionais, discutimos os casos clínicos, debatemos sobre a saúde ocupacional, falamos de atestados médicos, readaptações, reabilitações, as condutas previdenciárias, entre outros assuntos, e no final do dia tem uma aula, onde debatemos a medicina do trabalho, onde está inserida, falamos desde Ramazzini até como fazer um adequado atestado médico.
No final do estágio, sempre pergunto se eles aprenderam alguma coisa, e fico muito satisfeito quando a maioria dos alunos diz que gostou muito de conhecer a especialidade, que não imaginavam o que um médico do trabalho fazia. Alguns dizem que nunca pensaram em medicina do trabalho como especialidade para seguir, e que depois de passar no ambulatório pensam na possibilidade de fazer residência ou uma pós-graduação na especialidade. Geralmente na pós-graduação da faculdade, um ou dois anos depois sempre tem quatro ou cinco ex-alunos já fazendo a pós. Em alguns congressos, sou abordado por ex-alunos que vem falar comigo que seguiram a especialidade ‘por que você me incentivou’. Uma vez, num congresso do Rio de Janeiro, eu estava com a família subindo o trenzinho do Cristo Redentor e me sentei ao lado de uma jovem médica que também participava do congresso, que me reconheceu e disse: ‘você é o professor Bezerra de Presidente Prudente? Fiz medicina do trabalho por causa de você!!!’ eu respondi, que sim, e brinquei com ela, “você é discípula de Ramazzini e de Bezerra”. Morremos de rir….”

Dr Thiago Braz Novaes

“Meu nome é Thiago Braz Novaes, sou médico e há 10 anos escolhi, com muito orgulho e dedicação, a Medicina do Trabalho como minha especialidade.
Com certeza o que me marcou muito foi o desafio de implantar e coordenar os protocolos de saúde e prevenção ao COVID-19 em duas grandes empresas de Santa Catarina. Em meio a tantas incertezas, criamos um cuidado genuíno e contínuo voltado para os trabalhadores e seus familiares, conseguindo, através da prevenção, mudar muitos desfechos clínicos, protegendo e salvando vidas.”

Ueslei Elias de Faria

“Me chamo Ueslei Elias de Faria e me apaixonei pela especialidade após formado. Tudo começou com um hobby e hoje é uma das minhas paixões. Me motiva levantar e trabalhar com aquilo que amo fazer. Como diria o popular, quem gosta do que faz nunca mais precisa trabalhar, pois o trabalho é um prazer.”

By | 2021-10-04T09:21:15-03:00 4 de outubro de 2021|Institucional|Comentários desativados em ANAMT comemora o Dia do Médico do Trabalho com relatos de profissionais